HIPERPLASIA
ANGIOLINFÓIDE COM EOSINOFILIA - Anais Brasileiros de Dermatologia
1993;68(5):263-265
Maria Paulina Vilarejo
Kede 1
Maria de Fátima G. Scotelaro Alves 1
Márcia Ramos-e-Silva 2
Trabalho realizado no Curso de Pós-Graduação em Medicina (Área: Dermatologia) - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho - Serviço de Dermatologia - Universidade Federal do Rio de janeiro.
1 Mestre em Medicina
(Área: Dermatologia)
2 Professor Adjunto
Resumo
Os autores apresentam um caso de hiperplasia angiolinfóide com eosinofilia
e fazem uma revisão da história, patogênese, clínica,
histopatologia e terapêutica da HALE, enfatizando alguns aspectos ainda
controversos relacionados à doença.
Unitermos:
hiperplasia angiolínfóide com eosinofilia; HALE; doença
de Kimura.
Summary
Angiolymphoid hyperplasia with eosinophilia
A case of angiolymphoid hyperplasia with eosinophilia is presented and the authors
review the history, pathogenesis, clinics, histopathology and treatment of this
disease, emphasizing some aspects which are still controversial.
Uniterms: angiolymphoid hyperplasia with eosinophilia; Kimura's disease
História
A HALE foi inicialmente descrita por Kimura e col. em 1948 como linfofoliculose
eosinofílica da pele.(7) Em 1966, aproximadamente 150 casos foram descritos
no Oriente e passou-se então a conhecer esta doença como um processo
idiopático que acometia orientaís.(6) Já em 1969, casos
semelhantes foram descritos na literatura inglesa, primeiramente por Wells &
Whister,(13) que reconheceram a semelhança com a doença descrita
por Kimura e denominaram-na hiperplasia angiolinfóide subcutânea
com eosinofilia.(3,14) Também nesta época, Wilson-Jones &
Bleehen(14) descreveram nódulos subcutâneos que chamaram de pseudogranuloma
piogênico.
A HALE se caracteriza por uma proliferação vascular atípica com inflamação e engloba sob esta denominação uma variedade de entidades que têm sido chamadas de: nódulos inflamatórios angiomatosos, pseudogranuloma piogênico, doença de Kimura, hemangioma epitelióide e hiperplasia angiolinfóide subcutânea com eosinofilia.(9)
Definição
A híperplasia angiolinfóide com eosinofilia é uma afecção
rara, caracterizada por lesões papulosas, nodulares, tumorais ou em placas
de cor violácea, localizadas freqüentemente na cabeça e pescoço,
com quadro histopatológico de hiperplasia linfóide e proliferação
angióide com eosinofilia tissular e sangüínea.(2, 3)
Etiopatogenia
A patogênese da HALE permanece desconhecida, apesar da maioria dos pesquisadores
ocidentais acreditarem que esta condição representa uma hiperplasia
benigna de um tipo de célula endotelial. Posteriormente esta hipótese
foi reafirmada através de estudos imunohistoquímicos, os quais
demonstraram positividade para o fator VIll e negatividade para lisozimas, confirmando
a natureza endotelial destas células.(8, 9) As opiniões continuam
ainda divergentes sobre se estas lesões representariam um verdadeiro
neoplasma ou se seriam apenas um fenômeno inflamatório reativo
a uma variedade de injúrias tais como: traumas, infecções,
etc. Grimwood e cols. sugeriram a possibilidade de uma vasculite por imunocomplexos,
já que através de estudos de imunofluorescência direta se
observam, nas lesões, depósitos de IgA, IgM e C3 em torno dos
vasos de pequeno calibre. Em diversos estudos posteriores, observou-se a presença
de shunts artériovenosos e proliferação endotelial intravascular,
relacionando esses achados a traumas ou a um estado de hiperestrogenemia, auxiliando
muito o entendimento da persistência e/ou recorrência das lesões.
Existem algumas controvérsias sobre o fato da doença de Kimura
e a hiperplasia angiolinfóide com eosinofilia representarem a mesma entidade,
já que se observam algumas diferenças na natureza de célula
vascular proliferante. As semelhanças, no entanto, justificam a classificação
como uma única entidade. (4,6,8,9,11)
Clínica
Caracteriza-se, clinicamente, por lesões papulosas ou modulares, únicas
ou múltiplas, de coloração variável, do vermelho
ao acastanhado, medindo aproximadamente um centímetro, mas podendo atingir
até 5 a 10cm quando subcutâneas. Envolve, mais freqüentemente,
a cabeça e o pescoço, porém, recentemente, foram descritos
alguns casos com acometimento dos pés, pernas ou ambos,(5) de caráter
benigno e sem acometimento sistêmico. Ocasionalmente há eosinofilia
significativa no sangue periférico e aumento dos gânglios periféricos
regionais.(2-5) Os nódulos são geralmente assintomáticos,
embora prurido e dor tenham sido relatados. A dor e o crescimento da lesão
são as queixas mais comuns. O sangramento espontâneo, assim como
pulsações palpáveis sobre as lesões, é observado
em alguns casos, o que condiz com a natureza vascular das lesões.(5)
A HALE predomina em adultos, com média de acometimento aos 32 anos de
idade; é mais freqüente nas mulheres, apesar dos casos japoneses
mostrarem maior incidência no sexo masculinos.(8) É rara em negros.(5)
Diagnóstico
A presença de um ou mais nódulos subcutâneos na cabeça
ou pescoço de um paciente relativamente jovem, associado à eosinofilia
no sangue periférico, sugere o diagnóstico de HALE. No entanto,
o diagnóstico definitivo depende do exame histopatológico.
Histopatologia
A lesão apresenta histologicamente dois componentes: um celular e outro
vascular. O primeiro se caracteriza pelo extenso infiltrado celular linfohistiocitário
com numerosos eosinófilos, que também podem estar presentes em
pequeno número ou mesmo ausentes. Em 40% dos casos, principalmente nos
nódulos subcutâneos, podemos identificar folículos linfóides
com centros germinativos. Já no componente vascular, observa-se proliferação
bizarra de capilares com células endoteliais pleomórficas e edemaciadas
que se projetam para o lúmen, levando algumas vezes à oclusão
do vaso. Pequenos brotamentos e cordões de células endoteliais
podem ser vistos, os quais mostram pequeno lúmen central.(2,3,7) As variações
desses achados dependem dos diferentes estágios de desenvolvimento das
lesões e das diferentes respostas tissulares.(3)
As lesões de hiperplasia angiolinfóide com eosinofilia devem ser
distinguidas, devido a características histológicas sobrepostas,
do angiossarcoma e do hemangioendotelioma epitelióide. Devem ser diferenciadas
também do granuloma eosinofílico, dos infiltrados linfocíticos
benignos da pele, do granuloma piogênico atípico, dos hematomas
angióides linfóides e das reações persistentes a
picada de inseto.(2,3,7,14)
Tratamento
O tratamento de eleição é a excisão cirúrgica,
havendo recidiva em muitos casos.(3) Outros tratamentos foram propostos como:
nitrogênio líquido; laserterapia,(12) radioterapia local;(1) corticoterapia
local e intralesional, principalmente nos casos recidivantes. A remissão
espontânea foi descrita em alguns casos.(2)
Evolução
e prognóstico
Na maioria dos casos, a excisão cirúrgica proporciona cura definitiva.(2)
Alguns pacientes podem desenvolver novas lesões de crescimento lento
e, até o presente, não há referência de transformação
maligna.(14)
Caso clínico
Identificação
D.N.S., fem., 42 anos, branca, casada, do lar, residente e natural do RJ.
História
da doença atual
A paciente relatava início do quatro há cinco anos com aparecimento
de lesão papulosa, eritêmato-purpúrica, medindo 1,5cm, localizada
na região retroauricular direita. Posteriormente, surgiram lesões
satélites com as mesmas características da inicial. O pavilhão
auricular exibiu tumefação configurando placa eritêmato-purpúrica.
Acrescia-se ao quadro intenso prurido e sangramento excessivo à simples
manipulação. À visualização e à palpação
foi constatada adenomegalia retroauricular e cervical direita.
Histórias
patológicas pregressa, familiar e social
Sem dados dignos de nota.
Exame dermatológico
Lesão tumoral angiomatosa de consistência amolecida, localizada
no pavilhão auricular direito, estendendo-se para a região retroauricular
direita. Adenomegalia de aproximadamente 3cm, consistência amolecia, dolorosa
à palpação e localizada na região cervical e retroauticular
direita.(Fig. 1)

Fig.
1 - Aspecto clínico da lesão
Exames complementares
Herdograma: eosinofilia periférica - 30% por mm3.
Histopatológico: ectasia e neoformação vascular com células endoteliais proeminentes na parede vascular. Na derme, denso infiltrado inflamatório composto de linfócitos, mastócitos, histiócitos e eosinófilos. (Figs. 2, 3 e 4)

Fig. 2 - Histopatologia (X 100)

Fig. 3 - Histopatologia (X 400)

Fig. 4 - Histopatologia (X 400)
Comentários
O caso apresentado foi diagnosticado como hiperplasia angiolinfóide numa
paciente do sexo feminino, com 42 anos, que apresentava lesões localizadas
na região do pavilhão auricular direito, com evolução
de cinco anos. Havia adenopatia em região cervical e retroauricular direita,
visíveis e palpáveis, além de eosinofilia sanguínea
de 30%. A lesão se mostrava discretamente amolecida, com prurido, sangramento
e cor violácea.
Confirmado o diagnóstico pelo exame histopatológico, sugeriu-se a retirada cirúrgica da lesão, o que foi contra-indicado pelo Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Foi prescrito então tratamento radioterápico baseado nos trabalhos já descritos acima, mas a paciente abandonou o ambulatório, não retomando às consultas subseqüentes.
Referências
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the skin. Cancer, 34:1696-705,1974.
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Med Cut ILA, 18:323-6,1990.
3. FLORIÃO RA, CARVALHO CR, MARQUES AS, SILVA RR - Hiperplasia angiolinfóide
com eosinofilia. Doença de Kimura. An bras Dermatol, 61:241-4, 1986.
4. GRIMWOOD R, SWINEHART JM, AELING JL - Angiolymphoid hyperplasia with eosinophilia.
Arch Dermatol, 115:205-7,1979.
5. HENRY PG, BURNETT JW - Angiolymphoid hyperplasia with eosinophilia. Arch
Dermatol, 114:1168-72, 1978.
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(Kimura's disease). Jpn J Dermatol, 76:61-72, 1966.
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