HIPERPLASIA PAPILAR DO PALATO - Anais Brasileiros de Dermatologia 1994;69(1):28-31
Maria
Fernanda Gavazzoni Dias 1
Marcia Ramos-e-Silva 2
Trabalho realizado no Ambulatório de Dermatologia Oral (Coord.: Profª. Marcia Ramos-e-Silva), Serviço de Dermatologia (Chefia: Prof. Antônio Carlos Pereira Jr.), HUCFF-UFRJ.
1
Mestranda, Curso de Pós-Graduação em Medicina (Área:
Dermatologia) - UFRJ.
2 Professor Adjunto - UFRJ.
Resumo:
A hiperplasia papilar do palato é uma entidade relativamente comum entre
os usuários de prótese dentária, mas freqüentemente
negligenciada pelo profissional. As autoras apresentam dois casos típicos
e revêem a literatura sobre o assunto.
Palavras-chave: Hiperplasia; estomatite sob prótese.
Summary:
Inflammatory papillary hiperplasia of the palate is relatively common among
denture users, but often neglected by the professional. The authors present
two typical cases and review the literature on this subject.
Key words: Hiperplasia; denture stomatitis.
INTRODUÇÃO
A hiperplasia papilar do palato (HPP) foi inicialmente descrita por Fisher &
Rashid,1 em 1952, caracterizando-se por numerosas papilas hiperplasiadas e eritematosas,
localizadas na mucosa oral. É também chamada de papilomatose do
palato, pseudopapilomatose, estomatite hipertrófica, granulação
do palato e hiperplasia pseudoepiteliomatosa do palato. É considerada
uma variedade da estomatite protética.2
Essas papilas hiperplasiadas são resultantes de proliferação epitelial, em geral assintomáticas e dispostas concentricamente. O local onde há maior incidência é o palato duro, em especial nas áreas em contato íntimo com próteses dentárias. A HPP é uma condição comum e com freqüencia negligenciada pelo profissional.3
Sua etiologia é ainda pouco esclarecida, mas diversos fatores têm sido considerados como coadjuvantes no processo, tais como: próteses dentárias mal ajustadas, má higiene oral e candidíase.4
Relatos ocasionais de malignização associada à HPP justificaram o fato de alguns autores considerarem-na lesão pré-maligna, principalmente quando há focos de disceratose evidenciados no exame histopatológico.5 Alguns patologistas não acostumados com lesões orais, consideram-na um carcinoma escamoso grau I,6 porém a evidência de tratar-se de fato de lesão pré-maligna ainda é inconclusiva. Por esta razão, há várias propostas para tratamento, tais como: remoção da prótese dentária, cauterização, crioterapia, remoção cirúrgica da lesão, incluindo ou não o periósteo do osso adjacente.
RELATO
DOS CASOS
Caso no 1
Fem., br., cas., passadeira, nat. e residente no RJ.
Há cerca de dois meses, procurou profissional para fazer nova prótese
dentária e este notou a lesão no palato duro, encaminhando a paciente
para um serviço de Dermatologia. A lesão era assintomática
e a paciente não sabia precisar o tempo de evolução. Era
fumante de meio maço por dia há dez anos e fazia uso de prótese
dentária completa na arcada superior, há cerca de vinte anos,
sem retirá-la para dormir.
Caso
no 2
Fem., br., viúva, do lar, nat. de MG e residente no RJ.
Apresentava, há aproximadamente seis meses, lesão assintomática
no palato duro. Negava tabagismo e usava prótese dentária completa
na arcada superior, há cerca de dez anos, dormindo com a mesma.
Caso
no 1 e no 2
Exame dermatológico
Lesão em placa eritematosa com superfície irregular, vegetante,
papilomatosa, brilhosa, ocupando quase todo o palato duro, exatamente na área
coberta pela prótese (Figuras 1 e 2).
Exames
laboratoriais
Exame micológico do raspado da lesão - direto: negativo - cultura:
negativa
Restante: sem alterações dignas de nota
Exame
histopatológico
Epitélio pavimentoso estratificado, paraceratinizado com edema intracelular
acentuado e hiperplasia celular. Na derme, há densa reação
inflamatória mononuclear (Figura 3).
Conclusão: Hiperplasia papilar do palato.
Conduta e evolução - curetagem da lesão; remodelagem da prótese; e instruções quanto à higiene da prótese e a fatores agravantes (fumo e álcool).
DISCUSSÃO
A HPP é mais comum em brancos4 e homens6 entre a terceira e a quinta
década de vida.4 É encontrada em 10% de todos os usuários
de dentaduras6,7 e em 20% daqueles que usam dentaduras 24 horas por dia.6 As
duas pacientes relatadas dormiam com a dentadura o que favorece o aparecimento
das lesões.
Esta
afecção é dez vezes mais freqüente em pacientes que
dormem com a prótese dentária do que naqueles que a retiram para
dormir. É cinco vezes mais comum em usuários de dentaduras em
acrílico do que em usuários de dentaduras metálicas.6
Thwaites
et al.4 descreveram um caso de HPP numa menina de dez anos de idade, onde a
etiologia foi atribuída à má higiene oral e ao hábito
de respiração oral, já que a paciente não fazia
uso de prótese dentária.
São
inúmeras as condições associadas à HPP relatadas
na literatura, tais como: uso de próteses dentárias durante um
grande número de horas por dia, má adaptação das
mesmas, principalmente quando há espaço morto entre a prótese
e o palato, longo tempo de uso da prótese, má higiene oral, material
envolvido na confecção das próteses, infecção
por fungos, traumas, substâncias usadas na higiene das próteses
e doenças sistêmicas como a anemia ferropriva e as deficiências
nutricionais,7 entre outras.
Cutright8
sugere como fatores predisponentes a alteração da flora bacteriana,
a falência da salivação na limpeza bucal e do palato, a
falência da língua na limpeza bucal e do palato, o acúmulo
de substâncias tóxicas e o trauma pela dentadura. Considera a HPP
como uma resposta do epitélio para envolver e expelir um corpo estranho,
gerando uma reação inflamatória crônica e acha que
o trauma é responsável por uma diminuição da vascularização
das papilas e por gerar uma hiperplasia das fibras colágenas.
Yrastorza,9
Guernsey3 e Fairchild10 acreditam que haja um fator predisponente individual
importante, já que nem todas as pessoas que usam prótese e têm
má higiene oral apresentam HPP. Em seu estudo, Guernsey3 encontrou incidência
maior de HPP na segunda década de vida, questionando então a relação
entre o tempo total de uso da prótese.
Nas
duas pacientes descritas não se encontrou nenhum dos fatores predisponentes,
relatados anteriormente na literatura, a não ser o uso prolongado da
dentadura.
Yrastorza9
encontrou, na maioria de suas biópsias, inflamação, porém
com disceratose, sendo este dado interpretado como sugestivo de neoplasia.
Fairchild10
valorizou em suas pesquisas o tipo de material utilizado na confecção
das próteses, principalmente resina e metal, além do espaço
morto entre a prótese e o palato, e não encontrou bactérias
ou fungos na maioria das culturas de palato nos pacientes com HPP. Este autor
também não valorizou o tempo de uso de prótese dentária.
Sua conclusão foi da participação especial de espaço
morto entre a dentadura e o palato, além de materiais como resina e metal
utilizados na fabricação das dentaduras.
O'
Driscoll11 estudou casos de HPP na tentativa de avaliar sua gênese, em
pacientes não expostos à irritação por dentadura.
Não foram identificados microrganismos ou qualquer diferença clínica
ou histopatológica nas lesões deste grupo de pacientes em relação
aos que usavam prótese.
A
HPP, clinicamente, se caracteriza pela presença de numerosas papilas
pequenas, eritematosas, edemaciadas, localizadas com maior freqüencia no
palato duro, mas que podem surgir em qualquer outro local da mucosa oral. São
geralmente assintomáticas, mas os pacientes podem referir sensação
de ardência, dor ou queimação no local. Pode haver aspecto
de paralelepípedo. Vários graus de inflamação podem
estar presentes. As pápulas costumam não exceder 2mm. e podem
ser isoladas ou agrupadas.
A
melhor maneira de se visualizar a lesão é com luz brilhante e
jato de ar diretamente colocados sobre a mesma. Observa-se, então, um
aspecto de "vento soprando sobre campos de trigo".1,3,5,6,9,11
A
HPP é considerada uma forma de estomatite protética,7 correspondendo
à forma granulosa inflamatória da mesma.12
Ao
exame histopatológico, observa-se hiperceratose com paraceratose, papilomatose
exuberante, ulcerações (nas grandes lesões), infiltrado
inflamatório na derme com linfócitos, plasmócitos e polimorfonucleares,1,4,5,6,9,11
hiperplasia das células basais, coilócitos,4 hiperplasia pseudoepiteliomatosa
com pérolas córneas, raramente com ulceração,6 figuras
de mitose,11 hipercromasia da camada basal com despolarização
celular.9
Nenhum
dos outros autores, a exceção de Yrastorza,9 considerou tratar-se
de lesão maligna ou pré-maligna.1,4,5,6,11
O
diagnóstico é feito pela clínica. As lesões são
melhor visualizadas sob jato forte de ar, como já citado.3,4,5,6,9,11
É
importante a retirada da prótese dentária durante o exame da cavidade
oral, pois em se tratando de lesão assintomática, o paciente pode
não referi-la na anamnese.
O
diagnóstico diferencial se faz principalmente com a estomatite nicotínica,
que não ocorre em fumantes com prótese, pois a mesma protege o
palato. São lesões mais ceratinizadas, mostrando pequenos pontos
no centro de cada elevação com o orifício do duto da glândula
salivar subjacente.7 A doença de Darier às vezes se apresenta
sob a forma de lesões orais semelhantes à HPP, podendo ocorrer
no palato, porém é raro haver grande número de pápulas.
São mais ceratinizadas e com projeções mais delicadas e,
quando confluem têm aspecto de leucoplasia.7 O carcinoma espinocelular
também pode se confundir com a HPP e, quando clinicamente semelhante,
a diferenciação se faz através da histopatologia.
Várias
propostas de tratamento são apresentadas para a HPP:
1. A curetagem pode ser realizada, até o ponto onde o tecido aparece
liso e homogêneo4,6 ou até a área supraperióstea,9
além de necessitar de confecção de nova prótese
dentária com melhora da higiene oral e retirada da dentadura à
noite para dormir.6,13
2.
A excisão radical do palato, incluindo periósteo tem sido preconizada,
sendo aceitável apenas para pequenas lesões, pois há o
risco de traumatismo de artérias importantes, além de osteomielite
e dor pós-operatória.3
3.
A eletrocirurgia permite a rápida cicatrização da área
afetada, não alcançando o periósteo. Provoca pouco sangramento
e permite o tratamento de lesão de qualquer tamanho. Não deixa
cicatrizes,13 porém há relatos de dor de média intensidade
no pós-operatório, além do ato cirúrgico ser desconfortável
para o paciente.14 Guernsey3 associa a este método o uso de cobertura
oleosa de zinco com bacitracina.
4.
O laser (Light Amplification Emission of Radiation) é um método
bastante seguro, levando à boa cicatrização em algumas
semanas, sem necessitar de anestesia local. Provoca edema discreto e não
deixa cicatriz, embora seja sujeito a recidivas.15
5.
O uso de tópicos não tem tido resultados satisfatórios.
Budtz-Jorgensen & Löe16 tentaram usar clorhexidine a 2% no palato para
tratar candidíase, porém a droga não alterou a HPP e Walker
et al.17 usaram anfotericina B tópica e limpador químico de dentaduras
(sterildents) para tratamento da estomatite protética associada à
Candida, sem bons resultados.
6.
A criocirurgia constitui-se na aplicação de nitrogênio líquido,
o qual é colocado em contato com a lesão sob pressão suave
por 12 a 30 segundos. A lesão ganha aspecto esbranquiçado sólido,
congelado e, em menos de dois minutos, readquire aspecto original. Ocorre descamação
em três e quatro dias, sem dor, sangramento ou desconforto na mastigação.5,18,19
Pode ser aplicado com um simples cotonete, molhado no nitrogênio líquido
sem provocar dor ou sangramento durante o procedimento. Não há
recidiva, porém pode ser reaplicado, se necessário. Não
há perigo de congelamento excessivo. É superior ao O2 líquido.5,18,19
Cutright,8
Tucker2 e Bolender13 propõem melhora da higiene oral com jatos de água
intermitentes duas vezes ao dia por dois meses, além de remoção
da dentadura, porém o uso deste método isoladamente não
demonstrou melhora clínica nas lesões de HPP para a maioria dos
autores. Deve, sim, ser associado a outro método mais objetivo.
As duas pacientes aqui descritas foram tratadas com cauterização e curetagem da lesão e foi indicada a remodelagem da prótese, sendo que o caso n° 1 queixou-se de ardência no local por dois meses após a curetagem, melhorando em seguida. O resultado terapêutico foi considerado satisfatório. o
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
1. Fisher AK, Rashid PJ. Inflammatory papillary hyperplasia of the palatal mucosa.
Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1952;5:191-98.
2. Tucker KM, Heget HS. The incidence of inflammatory papillary hyperplasia.
J Am Dent Assoc 1976;93:610-13.
3. Guernsey LH. Reactive inflammatory papillary hyperplasia of the palate. Oral
Surg Oral Med Oral Pathol 1965;20(6):814-27.
4. Thwaites MS, Jeter TE, Ajagbe O. Inflammatory papillary hyperplasia: review
of literature and case report involving a 10-year-old child. Quintessence Int
1990;21(2):133-38.
5. Amaral WJ, Frost JR, Howard WR, Cheatham JL. Cryosurgery in treatment of
inflammatory papillary hyperplasia. Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1968;25(4):648-54.
6. Bhaskar SN, Beasley JD, Cutright DE. Inflammatory papillary hyperplasia of
the oral mucosa: report of 341 cases. J Am Dent Assoc 1970;81:949-52.
7. Rook A, Wilkinson DS, Ebling FJG, Champion RH, Burton JL. ed. Textbook of
dermatology. 4th ed. London: Blackwell Scientific Publications, 1986;2.
8. Cutright DE. Morphogenesis of inflammatory papillary hyperplasia. J Prosthet
Dent 1975;33(4):380-85.
9. Yrastorza JA. Inflammatory papillary hyperplasia of the palate. J Oral Surg
Anesth Hosp D Serv 1963;21:330-36.
10. Fairchild JM. Inflammatory papillary hyperplasia of the palate. J Prost
Dent 1967;17(3):232-37.
11. O'Driscoll PM. Papillary hyperplasia of the palate. Br Dent J 1965;118:77-80.
12. Bergendahl T, Heimdahl A, Isacsson G. Surgery in the treatment of denture-related
inflammatory papillary hyperplasia of the palate. Int J Oral Surg 1980;9:312-19.
13. Bolender CL, Swenson RD, Yamane G. Evaluation of treatment of inflammatory
papillary hyperplasia of the palate. J Pros Dent 1965;15(6):1013-22.
14. Uohara GI, Federbush MD. Removal of pappilary hyperplasia. J Oral Surg 1968;26:463-66.
15. Sachs SA, Borden GE. The utilization of the carbon dioxide laser in the
treatment of recurrent papillomatosis: report of case. J Oral Surg 1981;39:299-300.
16. Budtz-Jorgensen E, Löe H. Chlorhexidine as a denture desinfectant in
the treatment of denture stomatitis. Scand J Dent Res 1972;80:457-64.
17. Walker DM, Statford GD, Huggett R, Newcombe RG. The treatment of denture-induced
stomatitis: evaluation of two agents. Br Dent J 1981;151:416-19.
18. Getter L, Perez B. Controlled cryotherapy in the treatment of inflammatory
pappilary hyperplasia. Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1972;34(2):178-86.
19. Hudgins LJ. Inflammatory papillary hyperplasia: evaluation of two treatment
modalities. Ont Dent 1986;63(4):11-6.
Figura
1: Caso no 1: Clínica
Figura 2: Caso no 2: Clínica
Figura 3: Caso no 1: Histopatologia. 100X