DOENÇA DA ARRANHADURA DE GATO - Anais Brasileiros de Dermatologia 1995;70(2):119-122
Omar Lupi da Rosa
Santos 1
Andréia Mateus Moreira 1
Ana Márcia Mesquita Campello 2
Marcia Ramos-e-Silva 3
Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro, HUCFF-UFRJ.
1 Mestrandos em
Dermatologia, Faculdade de Medicina - UFRJ.
2 Médica, Serviço de Dermatologia, HUPE-UERJ.
3 Professora Adjunta de Dermatologia, Faculdade de Medicina, HUCFF-UFRJ.
Summary:
A report of a case of cat-scratch sickness or benign inoculation lympho-reticulosis,
usually a benign lymphadenopathy involving lymph nodes that drain the primary
dermal or conjunctival sites of inoculation. It is a benign and self-limited
disorder but may, however, progress to a severe, systemic or recurrent infection,
producing encephalitis, neuroretinitis and osteomyelitis. The etiologic agent
is a small pleomorphic gram-negative bacillus, Rochalimaea henselae, a member
of the a-2 subgroup of the a-proteobacteria.
Key words: Cat-scratch disease; bacterial infections.
Introdução
A doença da arranhadura de gato (DAG) ou linforreticulose benigna de
inoculação é uma infecção zoonótica
caracterizada pelo surgimento de pápulas no sítio cutâneo
da arranhadura do gato, seguido de linfadenite regional subaguda.1,2
As primeiras descrições
da DAG relacionaram-se ao surgimento de conjuntivite granulomatosa acompanhada
de adenopatia pré-auricular e submaxilar, denominada síndrome
oculoglandular de Parinaud.3 Verhoeff 4 acreditava tratar-se de uma forma
de conjuntivite infecciosa com supuração dos gânglios, que
parece ser transmitida aos homens pelos animais. Debré et al.5
observaram o surgimento de linforreticulose cutânea após a arranhadura
de gatos. Mollaret et al.6,7 confirmaram a etiologia infecciosa da DAG, reproduzindo
as lesões cutâneas em primatas inoculados com pus oriundo de portadores
da doença.
A etiologia da
DAG é controversa. Diversos microorganismos têm sido implicados,
como fungos4, vírus6, clamídias8, micobactérias9,10 e bactérias
Gram-positivas.11 Wear et al.12 demonstraram, no entanto, a existência
de bacilos Gram-negativos pleomórficos em linfonodos de 39 pacientes
com DAG (coloração de Warthin-Starry). English et al.13 obtiveram
seu crescimento em meio de cultura BHI (brain-heart infusion) incubados a 32o
C.
Tentativas de classificação
taxonômicas incluíram o bacilo da arranhadura do gato no gênero
Rothia (Rothia dentocariosa),14 Afipia (Afipia felis)15 e, finalmente, Rochalimaea
(Rochalimaea henselae), pertencente ao subgrupo a-2 das a-proteobactérias
(Tabela 1).16,17 Adal et al.18 acreditam que tanto a Afipia felis quanto a Rochalimaea
henselae estão envolvidas na etiologia da DAG. Cerca de 80% dos gatos
domésticos de portadores da DAG apresentam anticorpos séricos
contra a Rochalimaea henselae.19 Os testes intradérmicos utilizados para
o diagnóstico da DAG contêm, principalmente, determinantes antigênicos
pertencentes ao gênero Rochalimaea.19,20
O diagnóstico
da DAG baseia-se no preenchimento de alguns dos quatro critérios abaixo
descritos:2,21,22
1. história de exposição a gatos, com evidência de
arranhadura ou mordida;
2. linfadenite regional com exclusão de outras causas de linfadenopatia;
3. teste cutâneo positivo com o antígeno de Hanger-Rose; e
4. análise histopatológica da lesão de inoculação
ou do gânglio acometido, revelando estrutura granulomatosa compatível
com a DAG e presença de bastonetes pleomórficos demonstrados pela
coloração de Warthin-Starry.
Um caso de DAG é apresentado, analisando-se os achados clínicos
e histopatológicos observados.
Relato do caso
M.A.M., 29 anos, masc., br., divorciado, empresário, nat. e residente
no Rio de Janeiro, RJ.
Relata lesão
incisocontusa por arranhadura de gato doméstico seguida, após
sete dias, de adenomegalia dolorosa em cadeia cervical anterior esquerda acompanhada
de um nódulo eritêmato-violáceo localizado na região
supraclavicular ipsilateral (Figura 1). Evoluiu com adinamia, queda do estado
geral e febre alta.
O exame físico
revelou paciente lúcido e orientado, normocorado, hidratado, anictérico
e acianótico. Apresentava-se pirético (390C) e com um pulso de
100bpm. Efetuou-se a exérese do nódulo localizado na região
supraclavicular, com posterior análise histopatológica. Observou-se
a existência de acantose irregular da epiderme e de denso infiltrado inflamatório
misto dérmico, rico em linfócitos e neutrófilos, caracterizando
um processo inflamatório inespecífico (Figura 2). Os vasos dérmicos
apresentaram-se dilatados e com extravasamento de hemácias. A coloração
pelo método de Warthin-Starry não permitiu a visualização
de bastonetes Gram-negativos no material analisado. Fragmentos da biópsia
enviados à bacteriologia e micologia não demonstraram o crescimento
de microorganismos.
O hemograma mostrou
série vermelha sem alterações e leucocitose de 22.000/mm3.
A velocidade de hemossedimentação (VHS) estava elevada.
A história
epidemiológica de arranhadura do gato, acompanhada de adenopatia unilateral
na topografia da lesão de inoculação, sugeriu o diagnóstico
de DAG. Não se efetuou o teste intradérmico de Hanger-Rose.
Instituiu-se antibioticoterapia sistêmica com doxiciclina (200mg/kg) por vinte dias. Houve gradual regressão da adenomegalia cervical anterior esquerda e da febre, com melhora do quadro clínico geral. O paciente permanece em acompanhamento clínico sem apresentar recorrência da lesão dermatológica.
Discussão
A DAG é uma causa incomum de adenopatia, geralmente precedida de uma
lesão cutânea primária, após contato ou arranhadura
de gato. Existem raros surtos epidêmicos descritos, com acometimento preferencial
de crianças. 22 A doença afeta todas as raças, sendo mais
comum no sexo masculino (61% dos casos).23,24
A arranhadura ou
mordida de gato ocorre em 90% dos casos, sendo considerada foco de inoculação
primário. Os felinos são portadores assintomáticos da Rochalimaea
henselae.25 Já foram isolados bacilos pleomórficos semelhantes
ao agente da DAG no linfonodo submandibular de um gato.26 Especula-se que tais
bacilos façam parte da flora oral do felino e sejam transmitidos para
as garras pela lambida. A doença também pode ser transmitida após
mordidas de cães, ferimentos com madeira ou ossos e picadas de insetos.27,28
Uma ou duas semanas
após a arranhadura do gato, no local da inoculação, geralmente
em área descoberta, desenvolve-se uma pápula eritematosa com rápida
evolução para lesão vesicopustulosa. A lesão primária
regride sem formação de cicatriz. Outras formas de apresentação
da lesão primária incluem lesões incisocontusas inflamadas
ou marcas purpúricas dos dentes do felino.22
A adenomegalia
regional desenvolve-se cerca de duas semanas após a inoculação,
sem linfangite evidente. É geralmente única (43% dos casos), com
linfonodos aumentados de volume, móveis, dolorosos e sinais inflamatórios
na pele suprajacente (Figura 1). Apresenta-se com intensa flogose local em 80%
dos doentes, sendo comum a supuração (13% dos casos). Os gânglios
axilares e submandibulares são os mais afetados, seguidos do pré-auricular
e do epitroclear.9,22,24 No paciente apresentado, observou-se uma lesão
nodular eritêmato-violácea no local da arranhadura, além
da adenomegalia cervical ipsilateral.
Sinais sistêmicos,
como anorexia, náuseas, calafrios, adinamia e febre moderada, ocorrem
em 60% dos casos. No caso estudado, observou-se queda acentuada no estado geral
e febre alta, que cederam prontamente após a instituição
da antibioticoterapia. Holley29 destaca que os episódios febris duram
de três dias a cinco semanas e guardam relação direta com
a supuração ganglionar.
Manifestações
atípicas da DAG incluem a síndrome oculocutânea de Parinaud,
encefalites, púrpura trombocitopênica, osteomielite e pneumonia
primária atípica. A conjuntivite granulomatosa de Parinaud ocorre
em 6% dos casos, com granuloma polipóide conjuntival, localizado no sítio
de inoculação.3 Reval et al.30 observaram o acometimento neurológico
em 3% dos casos, com convulsões generalizadas e coma. Lesões dermatológicas
atípicas ocorrem em 4% dos pacientes e incluem eritema nodoso, eritema
polimorfo e erupções maculopapulosas e morbiliformes.22,25 Não
se observou manifestações atípicas no paciente em estudo.
O exame laboratorial
mais específico para a DAG é o teste intradérmico com o
antígeno de Hanger-Rose. É preparado com o pus aspirado de linfonodos
de pacientes com DAG. As reações positivas caracterizam-se pelo
aparecimento, após 48 horas, de enduração igual ou maior
do que 5mm no local da injeção. O teste é sensível
e específico, mantendo-se positivo por até trinta anos após
o episódio inicial.22,27 A reação é positiva em
5% da população em geral, 18,5% de familiares de pacientes com
DAG e 25% dos veterinários.25 O teste de Hanger-Rose não foi realizado
no paciente apresentado devido à dificuldade na obtenção
do antígeno. A maioria dos testes intradérmicos efetuados a partir
de pus e material aspirado de linfonodos (reação de Ito-Reenstierna
do cancróide e reação de Frei do linfogranuloma venéreo)
tem sido pouco utilizada. Os riscos de transmissão de hepatite e síndrome
da imunodeficiência adquirida, além das dificuldades técnicas
na preparação dos antígenos, preocupam dermatologistas
e clínicos gerais. A reação em cadeia da polimerase (PCR)
tem demonstrado que a Rochalimaea henselae é o principal componente antigênico
dos testes intradérmicos para a DAG, corroborando o diagnóstico
etiológico da doença.20
O exame histopatológico
da lesão de inoculação demonstra, classicamente, áreas
acelulares de necrose dérmica rodeadas por várias camadas de histiócitos
e células epitelióides, e halo linfocitário externo.31
A biópsia ganglionar demonstra padrão histopatológico semelhante,
com a formação de abscessos confluentes.14,31 A análise
histopatológica do nódulo apresentado pelo paciente em estudo
demonstrou infiltrado inflamatório misto denso, ocupando toda a derme,
porém sem a formação de granulomas ou de áreas de
necrose. Johnson e Helwig31 destacam que lesões cutâneas de curta
evolução apresentam padrão inflamatório inespecífico,
logo substituído pelas áreas de necrose circundadas por halos
concêntricos de células mononucleares.
A coloração
de Warthin-Starry consegue demonstrar, em alguns casos, a presença de
aglomerados de bacilos pleomórficos extracelulares nas áreas de
necrose e próximos aos vasos dérmicos ectasiados.14,18 Não
foi observada a presença de bactérias ou outros microorganismos
na coloração de Warthin-Starry ou no PAS. A análise ultra-
-estrutural da DAG confirma a dificuldade na identificação da
Rochalimaea henselae nas lesões cutâneas.14 Os linfonodos supurados
são o sítio mais provável de obtenção da
bactéria, que não cresce nos meios habituais de cultivo.18
A DAG é uma doença de caráter benigno e evolução autolimitada, com total remissão clínica em dois meses.22 Margileth et al. 24,32,33 acreditam que a administração de antibacterianos sistêmicos não altera a evolução clínica da DAG. Holley29, entretanto, refere boa resposta terapêutica com o uso do ciprofloxacin. A doxiciclina34 e a eritromicina35 podem ser associadas, levando à regressão total do quadro. Iniciou-se o tratamento com doxiciclina (200mg/dia) por 21 dias, obtendo-se melhora da febre e da adinamia em cinco dias. A lesão de inoculação e a adenopatia cervical regrediram completamente no decorrer da terapêutica.
Tabela 1: Componentes do subgrupo a-2 das a-proteobactérias.
Gênero Rochalimaea
Rochalimaea quintana
Rochalimaea vinsonii
Rochalimaea elizabethae
Rochalimaea henselae
Gênero Afipia
Afipia clevelandensis
Afipia felis
Outros gêneros
Brucella abortus
Bartonella bacilliformis
Agrobacterium clevelandensis
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Figura 1: Doença da arranhadura de gato. Nódulo eritematoso localizado em região supraclavicular esquerda, acompanhado de adenome-galia cervical anterior esquerda
Figura 2: Doença da arranhadura de gato. Acantose irregular, infiltrado inflamatório misto dérmico composto por linfócitos e neutrófilos. Vasos dérmicos ectasiados (HE, 160x)