PENFIGÓIDE
CICATRICIAL: RELATO DE CASO - Anais Brasileiros de Dermatologia 1995;70(4):339-342
Fabiana Chartone
Rettore 1
Isabel Cristina Lopes Cardoso 2
Celso Tavares Sodré 3
Marcia Ramos-e-Silva 4
Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro - HUCFF-UFRJ.
1 Pós-Graduanda.
2 Residente.
3 Professor Auxiliar.
4 Professora Adjunta.
Resumo:
Descrição de um caso de penfigóide cicatricial, rara doença
auto-imune bolhosa, com manifestações clínicas exuberantes,
caracterizadas pelo acometimento de vários sítios mucosos e também
da pele.
Palavras-chave: Penfigóide mucomembranoso benigno.
Summary:
Report of a case of cicatricial pemphigoid, a rare bullous auto-immune disease,
clinically characterized by a severe involvement of mucous membranes and skin.
Key words: Pemphigoid, benign mucous membrane.
INTRODUÇÃO
O penfigóide cicatricial ou pênfigo benigno das mucosas é
doença rara, crônica, caracterizada clinicamente por surtos de
vesicobolhas recorrentes nas mucosas e na pele. Evolui com seqüelas cicatriciais
associadas à alta morbidade e à baixa letalidade. É mais
freqüente no sexo feminino (2:1), principalmente na quinta e sexta décadas,
sendo sua incidência indiferente quanto à raça.1
A etiologia é
desconhecida, mas sua patogênese está associada à produção
de auto-anticorpos anti-ZMB (zona da membrana basal).1
Descreve-se um caso caracterizado por manifestações clínicas exuberantes.
RELATO DO CASO
M.N.F.R., 62 anos, fem., br., do lar, nat. do Espírito Santo e procedente
do Rio de Janeiro.
A paciente relata
início do quadro há aproximadamente dois anos, com pirose. Progressivamente,
houve aparecimento de lesões bolhosas em couro cabeludo e mucosas conjuntival,
nasal, oral, vaginal e anal, que evoluíram com formação
de cicatrizes.
Ao exame dermatológico,
foram observadas lesões exulcerocrostosas em placa de alopecia cicatricial,
na região parietal do couro cabeludo (Figura 1), além de múltiplas
exulcerações dolorosas na mucosa oral (Figura 2), anal e do intróito
vaginal. Havia bolha íntegra na mucosa jugal e sinéquias em canto
interno de conjuntivas bulbar e palpebral (Figura 3).
Feitas as hipóteses
diagnósticas de penfigóide cicatricial e pênfigo vulgar,
foram realizados os exames complementares, cujos resultados se encontram no
quadro I.
Iniciou-se tratamento
com prednisona, na dose de 40mg/dia, ao qual a paciente não apresentou
boa resposta, tendo sido suspenso. Em seguida, administrou-se dapsona, 100mg/dia,
o que provocou metemoglobinemia, revertida com terapêutica adequada.
Reintroduziu-se, então, prednisona, 60mg/dia, com controle do quadro, estando a paciente sob dose de manutenção de 20mg/dia.
Comentários
Em termos epidemiológicos, a paciente se encaixa no grupo descrito na
literatura: é do sexo feminino e tem 62 anos.1
Embora de etiologia
ainda desconhecida, a patogênese do penfigóide cicatricial é
baseada no aparecimento de auto-anticorpos, que juntamente com o complemento,
se ligam à ZMB, causando separação dermoepidérmica.
Tem-se reconhecido
predisposição genética a essa doença, relacionada
provavelmente aos genes ligados ao complexo de histocompatibilidade major da
classe II.2 Alguns autores citam o HLA DQW7; DR4 e DQW3 como os mais envolvidos.2,3,4
Clinicamente, a
paciente apresenta comprometimento das mucosas oral e conjuntival, em geral,
mais afetadas, além de outras menos citadas na literatura, como nasal,
esofagiana, vaginal e anal.1,5
As complicações
tardias, referidas como decorrentes da cicatrização fibrótica,
são sinéquias, entrópio, opacificação parcial
ou total da córnea, triquíase, diminuição da fenda
palpebral e amaurose.1,6,7 Podem ainda ser observadas rouquidão, disfagia,
dispnéia, estenose supraglótica e surdez.1,5,8,9,10,11 Na genitália
têm sido observadas aderências entre o prepúcio e a glande
e estreitamento do óstio vaginal.12
O acometimento
cutâneo pode ocorrer como erupção generalizada de bolhas
tensas ou comumente como padrão de placa eritematosa localizada, sobre
a qual surgem bolhas recorrentes, mais freqüentes no couro cabeludo e áreas
periorificiais.1 A paciente apresentava, no couro cabeludo, a forma localizada,
que evoluiu com alopecia cicatricial.
Os exames complementares
(Quadro 1) foram compatíveis com penfigóide cicatricial, podendo
tardiamente, à microscopia óptica, observar, áreas de fibrose.1,13
À imunofluorescência direta, o padrão mais comum é
a deposição linear de IgG e C3 na ZMB, às vezes encontrando-se
IgM e IgA.13 No caso, observou-se deposição de IgA, IgG e C3 na
junção dermoepidérmica.
A imunofluorescência
indireta não foi realizada, por ser exame pouco sensível, que
mostra anticorpos circulantes anti-ZMB na minoria de casos.13,14,15
Segundo a literatura,
a análise pelo Western blot revela antígenos de 230 e 160Kd, semelhantes
aos do penfigóide bolhoso, questionando-se se esses antígenos
são estruturalmente idênticos ou se representam moléculas
diferentes, com pesos moleculares iguais.16
No diagnóstico
diferencial, cita-se pênfigo vulgar, penfigóide bolhoso e epidermólise
bolhosa adquirida.1,13
O tratamento indicado
é à base de prednisona, na dose de 1mg/kg/dia, ou dapsona, 100mg/kg/dia.1
Foram relatadas técnicas cirúrgicas para o tratamento das lesões
cicatriciais oculares1,17 que não se aplicam à paciente em questão,
por não apresentar seqüelas muito restritivas.
O prognóstico é reservado, devido ao caráter crônico, recidivante, que leva às alterações cicatriciais já referidas. A paciente vem sendo acompanhada periodicamente, com remissão clínica do quadro, relacionada, acredita-se, ao diagnóstico e tratamento precocemente instituídos.
Quadro I: Exames complementares
|
Hemograma completo
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Anemia
hipocrômica normocítica; |
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Histopatológico
|
Epiderme com intensa exocitose e espongiose. Clivagem
subepidérmica. |
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Imunofluorescência
direta |
Positividade linear fraca na junção dermo-epidérmica
e intensa na ZMB de folículos pilosos (IgA, IgG e C3)
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Exame
oftalmológico |
Simbléfaro e sinéquias em conjuntivas bulbar e palpebral.
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Endoscopia
digestiva alta |
Lesões erosadas em base eritematosa, na altura do
esfíncter superior do esôfago. |
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Rinoscopia
|
Lesões crostosas em vestíbulo nasal à esquerda. |
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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Figura 1: Lesões
eritematoescamoatróficas, de 5 x 5,5cm de diâmetro, assintomáticas,
no couro cabeludo
Figura 2: Lesão exulcerada de 3cm de diâmetro, com ardência
local, na mucosa jugal
Figura 3: Sinéquia na rima palpebral interna do olho esquerdo
Figura 4: Acantose, área de clivagem subepidérmica; infiltrado
inflamatório misto em derme superior e média (HE, 40x)
Figura 5: Maior detalhe da fenda subepidérmica (HE, 100x)