Adriana Aquino
1
Eliane Abad 1
Carlos Camilo 2
Ignacio Obadia 3
Marcia Ramos-e-Silva 3
Trabalho realizado no Curso de Pós-Graduação em Dermatologia da Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro - FM / UFRJ; Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho - HUCFF / UFRJ.
1 Mestrando.
2 Residente.
3 Professor Adjunto.
Resumo:
Relato de caso de acropigmentação de Dohi, o primeiro descrito
no Brasil, em menino de seis anos. A discromatose simétrica das extremidades,
como também é denominada, caracteriza-se por pequenas lesões
hiper e hipocrômicas assintomáticas, de padrão reticular
e simétrico, nos membros superiores e inferiores. O paciente apresentava
também hipospadia que necessitou correção cirúrgica.
Palavras-chave: Hipospadia; pigmentação.
Summary:
Report of a case of acropigmentation of Dohi, the first described in Brazil,
in a 6-year-old boy. The symmetric dischromatosis of the extremities, as it
is also called, is characterized by small assymptomatic hyper- and hypopigmented
lesions, showing a reticular and symmetric pattern, in the upper and lower limbs.
The patient also presented hypospadia which needed surgical correction.
Key words: Hypospadias; pigmentation.
INTRODUÇÃO
A acropigmentação de Dohi, também denominada discromatose
simétrica das extremidades, discromatose simétrica hereditária
e acropigmentação reticulada, foi descrita pela primeira vez em
asiáticos. Em 1920, Dohi estudou 12 casos (dez homens e duas mulheres)
de um distúrbio pigmentar até então desconhecido em pacientes
japoneses.1 Dohi e Komaya descreveram essa afecção inicialmente
em 1923 e 1924,2 e, mais tarde, Toyama, em 1929, propôs, para designá-la,
o termo discromatose simétrica hereditária.3
Têm-se descrito
casos dessa discromatose, sobretudo no Japão, onde é comum. Síndrome
idêntica ou bastante similar ocorre em europeus.4
A associação
da acropigmentação com malformação esquelética
e hipotricose foi relatada em 1991 por Lamey. O quadro foi observado em paciente
melanodermo, de dez anos, proveniente da Ilha da Reunião, no Oceano Índico.
Nesse local, cinco casos foram diagnosticados durante um período de quatro
anos. A malformação esquelética relatada foi agenesia de
terceiro, quarto e quinto artelhos direitos e dos dois últimos metatarsos
direitos.5
Na acropigmentação
de Dohi ocorre hiperpigmentação simétrica, similar a efélides,
no dorso das mãos e dos pés, na primeira década de vida.
As margens das lesões pigmentadas unem-se em padrão reticular,
e, entre elas, surgem máculas despigmentadas de 1 a 3mm. Não há
atrofia, e as lesões hiper e hipopigmentadas têm coloração
variável.6 A erupção estende-se lentamente na parte proximal,
podendo haver pequenas máculas hiperpigmentadas. As lesões são
assintomáticas e adquiridas por herança autossômica dominante.1
Acredita-se que
a acropigmentação de Dohi e a discromatose universal façam
parte do mesmo processo patológico, distinguindo-se apenas pela localização
que, na discromatose universal, é generalizada.6
Ao exame histopatológico
observa-se hiperpigmentação da camada basal epidérmica
que, na síndrome de Dohi, associa-se com incontinência pigmentar.6
Um paciente de seis anos portador de acropigmentação de Dohi associada a hipospadia foi acompanhado no HUCFF-UFRJ, sem casos semelhantes na família. Não há relato anterior desse tipo de discromia no Brasil.
RELATO DO CASO
Paciente de seis anos, do sexo masculino, feodermo, natural do Rio de Janeiro.
A doença iniciou-se aos três anos de idade, com o aparecimento
de lesões hiper e hipocrômicas, sem atrofia, medindo poucos milímetros,
de padrão reticular e simétrico no dorso das mãos, antebraços,
braços, axilas, dorso dos pés, pernas e coxas (Figura 1, 2, 3).
Apresentava ainda hipercromia na face anterior dos joelhos e na pele justarticular
dos quirodáctilos e pododáctilos. Tronco, pescoço e face
estavam poupados. Em sua história patológica pregressa havia relato
de varicela, parotidite endêmica e bronquite. Não havia casos semelhantes
na família, e seu desenvolvimento psicomotor foi normal.
No exame físico,
além das alterações cutâneas mencionadas, detectou-se
apenas uma hipospadia glandular. Foram realizados exames laboratoriais, como
hemograma, bioquímica do sangue e EAS, estando todos normais.
O exame histopatológico
da lesão mostrava epiderme com hiperceratose e, na derme, raras células
inflamatórias mononucleares pericapilares, além de discreta incontinência
pigmentar (Figura 4).
O paciente foi atendido também no Serviço de Genética, onde não foram detectadas alterações no cariótipo, e no Serviço de Cirurgia Pediátrica, onde foi submetido a cirurgia de postectomia com glandeplastia e avanço meatal (MAGPI). As ultra-sonografias abdominal e pélvica estavam normais. Durante um ano de acompanhamento clínico, não houve alteração no padrão das lesões cutâneas.
DISCUSSÃO
A observação desse único caso, no Brasil, de acropigmentação
de Dohi e hipospádia permite a discussão das anomalias pigmentares
reticulares, assim como da associação de discromias com malformações.
O grupo das discromias
reticuladas compreende pacientes com máculas hiperpigmentadas de coloração
variável entre o acastanhado e o preto. Em muitos desses quadros, há
lesões semelhantes a efélides anguladas, que tendem a unir-se
pelas margens, formando padrão reticulado. Outro elemento é a
presença de máculas hipopigmentadas entre as lesões hiperpigmentadas,
em alguns casos de discromias.
O diagnóstico
das discromias reticuladas depende de:
1. distribuição anatômica das lesões;
2. morfologia das lesões individuais;
3. arranjo ou padrão das lesões nas áreas afetadas; e
4. presença ou ausência de lesões hipopigmentadas.4
No caso da acropigmentação
de Dohi, o diagnóstico diferencial é feito sobretudo em relação
a outras formas de despigmentação acral, entre as quais se incluem:
1. acromelanose: os três tipos existentes ocorrem em melanodermos. Acredita-se
que o mais comum seja provocado pelo trauma repetido, levando à hiperpigmentação
da articulação interfalangeana. Surge com freqüência
nos joelhos e cotovelos. O segundo tipo inicia-se na infância e acomete
a superfície dorsal das falanges. O terceiro é muito raro e se
inicia no dorso dos quirodáctilos e dos pododáctilos, espalhando-se
por grandes extensões, comprometendo várias áreas anatômicas;
2. pigmentação reticulada acral de Kitamura: uma rede de lesões
hiperpigmentadas semelhantes a efélides desenvolve-se com distribuição
similar à da acropigmentação de Dohi. Entretanto, não
há máculas hipocrômicas e as lesões são atróficas,
tanto no aspecto clínico quanto histológico; e
3. heterocromia extremitarum: foi observada em paciente indiana de 24 anos.
Consta de máculas hipocrômicas, cujos tamanhos variam de 0,5 a
2cm, com diferentes graus de despigmentação. Não havia,
entretanto, lesões totalmente despigmentadas, e poucas máculas
hiperpigmentadas foram observadas nos membros superiores. Na paciente relatada,
excluiu-se o diagnóstico de hipopigmentação pós-inflamatória.1
Com exceção
do caso clínico relatado por Lamey, em 1991,5 em geral não existe
associação da acropigmentação de Dohi com anomalias
esqueléticas e hipotricose. Na maioria dos casos essa discromatose, assim
como os outros quadros de despigmentação acral, não é
acompanhada de anomalias sistêmicas. Contudo, na discromatose universal,
considerada parte do mesmo processo patológico da acropigmentação
de Dohi, foram relatados casos de associação com anomalias cromossômicas,
retardo de crescimento e anacusia.6
Os autores relatam um caso de acropigmentação de Dohi, o primeiro descrito no Brasil, em paciente de seis anos, natural do Rio de Janeiro, associado à hipospadia. O estudo de outros casos esclarecerá a validade de tal associação.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
1. Griffiths WAI. Reticulate pigmentary disorder: a review. Clin Exper Dermatol
1984;9:439-50.
2. Dohi & Komaya (1923, 1924) apud Lamey B. Acropigmentation de Dohi associée
à des anomalies squelettiques et une hypotrichose. Nouv Dermatol 1991;10:520-1.
3. Toyama (1929) apud Lamey B. Acropigmentation de Dohi associée à
des anomalies squelettiques et une hypotrichose. Nouv Dermatol 1991;10:520-1.
4. Bleehen SS, Ebling FJG, Champion RH. Disorders of skin colour. In: Champion
RH, Burton JL, Ebling FJG. eds. Rook, Wilkinson, Ebling Textbook of Dermatology.
5ed. Londres: Blackwell Scientific, 1992:1585.
5. Lamey B. Acropigmentation de Dohi associée à des anomalies
squelettiques et une hypotrichose. Nouv Dermatol 1991;10:
520-1.
6. Ortonne JP. Dyschromies. Encyc méd-chir Dermato (Paris) 1978:12280
A10.
Figura 1: Discromia de padrão reticular e simétrico nos braços e nas coxas. Ausência de lesões no tronco
Figura 2: Lesões hiper e hipocrômicas, de padrão reticular, nos braços e nas coxas
Figura 3: Máculas nas coxas e cicatriz cirúrgica de pênis
Figura 4: Epiderme - hiperceratose. Derme - raras células inflamatórias mononucleares pericapilares e discreta incontinência pigmentar (HE, 40x)