ESTOMATITE
AFTOSA RECORRENTE - AFTAS COMO EU TRATO - Dermatológica
1996;5(19):14-16
Marcia Ramos e
Silva
Supervisora do Ambulatório de Dermatologia Oral,
Professora Adjunta, Doutora em Dermatologia pela UFRJ,
Coordenadora Adjunta do Curso de Pós-Graduação em Dermatologia.
Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ), Faculdade
de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Trabalho apresentado
no Curso de Terapêutica
51o Congresso Brasileiro de Dermatologia - Recife, PE
Re-publicado com autorização: Dermatológica 1996;5(19):14-16.
Resumo
Revisão sobre estomatite aftosa recorrente enfatizando seus aspectos
históricos, epidemiológicos, etiopatogênicos, clínicos,
histopatológicos e terapêuticos.
Summary
Review about recurrent aphthous stomatitis, emphasizing its historical, epidemiological,
etiological, clinical and therapeutical aspects.
Histórico
O termo aphthae já era utilizado por Hipocrates, Celsius e seus sucessores
para descrever certo tipo de ulceração dolorosa, especialmente
oral, de maior ocorrência entre crianças, e cujas descrições
lembravam mais lesões de candidíase. Em 1802, Heberden fez a primeira
descrição do que se define como uma afta nos dias de hoje; em
1894, Mikulicz & Kummel individualizaram a afta recorrente como entidade
distinta. Jacobi, em 1898, descreveu sua natureza crônica e mencionou
a etiologia neurótica. Já Sibley, um ano depois, observou casos
em mulheres neuróticas e sugeriu uma perturbação mental,
denominando essas lesões de aftas neuróticas. Em 1923, Goadby
relacionou essas ulcerações orais recorrentes, que ocorriam sem
causa aparente em indivíduos saudáveis, com alterações
dispépticas. Blank, em 1950, e Sircus, em 1957, realizaram extensos estudos
sobre aftas que muito contribuíram para clarear essa confusa entidade.
Definição
A palavra afta é, em geral, usada para denominar qualquer úlcera
dolorosa da mucosa, em especial da oral, porém as aftas verdadeiras são
consideradas uma ou múltiplas áreas de perda de substância,
com erosão ou ulceração, não traumáticas,
de localização na mucosa oral, dolorosas, de aparição
subaguda, bem demarcadas, inicialmente necróticas e não vesicobolhosas,
com padrão recorrente. O melhor termo para definir a entidade da mucosa
oral de etiologia múltipla é estomatite aftosa recorrente.
Pelo conceito atual, outros processos ulcerosos da mucosa oral não devem ser denominados afta, como é o caso das úlceras traumáticas, de contato ou venenata, medicamentosa, da doença de Behçet, entre outras.
Epidemiologia
A estomatite aftosa recorrente é processo bastante comum, acometendo
de 10 a 30% da população; afeta qualquer idade e é ligeiramente
mais freqüente no sexo feminino (57% : 52%). As mulheres, além de
deterem a maior freqüência, quando apresentam a aftose recorrente,
têm maior número de lesões do que os homens acometidos pela
entidade. Outra característica é ser doença da classe média
e alta, em especial de profissionais de bom nível cultural.
Clínica
A doença provoca, no início e por cerca de 24 a 48 horas, vago
desconforto local, após o que surge lesão avermelhada pequena
e circunscrita. A seguir, ocorre necrose local, com dor intensa, aparecendo
uma úlcera arredondada, bem definida, geralmente de 2 a 5mm, relativamente
profunda, com base amarelada, mostrando o tecido necrótico ao centro.
As bordas são discretamente enduradas, e a área em torno fica
eritematosa. Pode ocorrer infecção bacteriana, o que retarda seu
desaparecimento. A duração média da ulceração
é de cinco a sete dias, e sua involução completa-se em,
no máximo, nos próximos um a quatro dias, sem deixar cicatriz.
Existem dois tipos de estomatite aftosa recorrente: a vulgar ou minor e a grave ou major. Suas características principais são descritas na tabela 1. Há descrições na literatura de tipos especiais, que seriam variantes ou mesmo entidades completamente diversas da estomatite aftosa recorrente, entre elas: a periadenite necrótica recorrente de Sutton, como variante, e a aftose bipolar de Neumann e a doença de Behçet, como entidades distintas.
Tabela
1: Característica do tipo minor e major da estomatite aftosa recorrente
|
TIPO |
MINOR |
MAJOR |
|
Etiologia |
defeito
imunológico ? |
defeito
imunológico ? |
|
Área
afetada |
oral, exc. gengiva, palato duro e vermelhão |
qualquer
área intra-oral |
|
Número
de lesões |
geralmente
única |
múltiplas
|
|
Aspecto
clínico |
úlcera
oval < 1cm |
úlceras
ovais, 0.5 a 2cm, crateriformes |
|
Duração |
1
semana |
várias
semanas |
|
Vesículas
prévias |
não |
não |
|
Extra-oral |
não |
não |
Adaptado de Regezi, 1989
Histopatologia
As alterações encontradas na histopatologia mostram um infarto
diminuto localizado, com perda brusca de uma área do epitélio
mucoso. Na derme, evidencia-se denso infiltrado difuso de linfócitos,
primeiramente de linfócitos CD4 e depois linfócitos CD8. O exame
de lesão recente sugere ser reação inflamatória
de hipersensibilidade, talvez uma vasculite por imunocomplexos.
Etiopatogenia
Sua etiopatogenia é bastante controversa e, provavelmente, múltipla.
Já foi descartada a origem viral, porém ainda pode estar relacionada
à origem infecciosa por bactérias, talvez Streptococcus, ou por
micoplasmas. O fator psicológico é reforçado por serem
alguns desses pacientes emotivamente hipersensíveis, com certa tendência
à ansiedade e hostilidade reprimida. A hipótese de etiologia gastrintestinal
deve-se ao fato de 30% dos pacientes apresentarem dispepsia, e 9%, úlcera
péptica, podendo, no entanto, essa hipótese ser confundida com
fatores psicossomáticos que levariam a distúrbios gástricos.
A etiologia endócrina também pode ser confundida com a psicossomática.
Há um quadro chamado de aftose catamênica, que começa na
menarca, desaparece na gravidez e ocorre poucos dias antes da menstruação.
Como a neutropenia
cíclica leva a alterações semelhantes a aftas, pensa-se
em fatores hematológicos como causa. Já um pequeno grupo de pacientes
melhora com reposição de vitamina B12, ácido fólico
e/ou ferro, após ser detectada sua deficiência. Há casos
de aftas que têm considerável regressão com a suspensão
da ingestão de certas frutas, em especial as ácidas, leite, ovo
e chocolate, que, comprovadamente, podem provocar aftas.
A teoria hereditária
tem como reforço a discreta maior freqüência de antígenos
de histocompatibilidade, pela associação com HLA A2, HLA B12,
AW29, DR7 e DR-2, e a auto-imune, pela demonstração de auto-anticorpos
contra células espinhosas e auto-anticorpos contra membrana da mucosa
oral. A presença de complexos autígeno-anticorpo sugerem uma vasculite
por imunocomplexos, talvez uma vasculite do tipo leucocitoclásica.
Atualmente, a afta pode ser definida como um processo imunopatológico que envolve a atividade citolítica mediada por células em resposta ao HLA ou a antígenos externos. As células da camada basal expressam antígenos HLA-DR e passam a ser destruídas pelos linfócitos CD4, o que levaria à destruição dessa camada.
Tratamento
Quanto ao tratamento da estomatite aftosa recorrente, há grande desorientação.
Durante o surto, têm sido utilizadas drogas cauterizantes, como fenol,
nitrato de prata e formol. Essas substâncias melhoram a dor por provocar
destruição das terminações nervosas; entretanto,
como produzem queimadura que leva a retardo na cicatrização, devem
ser evitadas. A reposição nutricional é controversa; há
autores que referem grande melhora com ácido fólico, ácido
nicotínico, riboflavina ou complexo B, enquanto outros referem insucesso.
Os anti-sépticos
têm seu lugar nesses processos, já que evitam a infecção
secundária. Entre eles é utilizado o clorhexidine em bochechos.
Entre os antibióticos são usadas, especialmente, a tetraciclina,
na concentração de 250mg em 10ml de água, quatro vezes
ao dia, e a aureomicina, 250mg em 10ml de água, três vezes ao dia,
ambas para bochechos, com bom resultado, levando de cinco a dez dias para o
efeito e involução completa.
Existem substâncias
tidas como agentes protetores da mucosa oral, entre eles o leite de magnésia
e os cianoacrilatos, estes últimos mais eficazes. Os anestésicos
tópicos melhoram a sensação de dor e o desconforto.
Para os casos mais
graves tem sido relatado o uso de vitamina C na dose de 2g/dia; a prednisona,
30mg em três tomadas por três dias, após o que se faz redução
de 5mg/dia; a triamcinolona, 24mg em três tomadas por três dias,
com posterior diminuição de 4mg/dia, até a retirada total
ou manutenção de dose baixa. Grinspan sugere a administração
intramuscular de gamaglobulina na dose de 800UI para melhorar o surto.
Para evitar recidivas,
é primordial a suspensão de certos alimentos e é sugerida
a gamaglobulina injetável em pequenas doses de 30UI por via subcutânea,
três vezes por semana, por, pelo menos, dois meses. Resultados surpreendentes
têm sido obtidos com a talidomida, 100 a 300mg ao dia, por um mês
ou mais. A dose deve ser reduzida até 50mg ou suspensa para ser reiniciada
em casos de recidiva. Pode também ser administrada em séries de
15 dias, alternadas com quinzenas sem a medicação. A colchicina
e a cloroquina também têm sido usadas com resultados variáveis.
Há autores que sugerem relação entre a estomatite aftosa
recorrente, principalmente em crianças, e a infestação
pela Giardia lamblia, e para tal recomendam o metronidazol. Permanecem ainda
em estudo os retinóides por seu efeito imunomodulador, e a dapsona, por
alterar a função dos neutrófilos.
No ambulatório
de Dermatologia Oral do HUCFF-UFRJ, o tratamento é sempre precedido de
avaliação clinico laboratorial completa do paciente, e a prescrição
é muito individualizada, dependendo das alterações encontradas
no paciente. Os problemas gástricos, infecciosos, hormonais, psicológicos
e nutricionais, entre outros, devem ser corrigidos logo no início, às
vezes sendo o suficiente para regredir o quadro oral. A relação
médico/paciente é primordial, em especial para a detecção
de problemas psicológicos, que podem exacerbar o quadro. Nunca se prescreve
um agente cáustico, pois, apesar de aliviar a sintomatologia, retarda
a involução da lesão. Atualmente, avalia-se, entre os pacientes
do Serviço, a possibilidade de relação com giardíase
e a conseqüente melhora da aftose com o metronidazol.
A prescrição é inicialmente mais voltada para a regressão da sintomatologia, tendo os bochechos com anti-sépticos e os antibióticos lugar garantido nesse arsenal. Já a talidomida é medicação bastante utilizada com excelentes resultados, especialmente nos casos de recorrência freqüente e quando não são encontrados outros fatores que possam ser responsabilizados. Deve-se, no entanto, atentar para seus efeitos colaterais, em especial no que tange à neuropatia periférica, e também nunca usá-la em mulheres na idade fértil, por seu intenso efeito teratogênico. Nos casos mais graves, usa-se corticóide sistêmico, colchicina, dapsona e, raramente, imunossupressores, com resultados diversos. Na terapêutica da estomatite aftosa recorrente, até hoje, quase tudo é empírico, e cada paciente deve ser avaliado com bom senso e de maneira individualizada.