ACROMIA QUÍMICA - Anais Brasileiros de Dermatologia 1997;72(2):191-197
Marcia Ramos-e-Silva
Trabalho realizado no Curso de Pós-Graduação em Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro - HUCFF-UFRJ.
Professora Adjunta
de Dermatologia - UFRJ; Livre-Docente em Dermatologia - UNIRIO.
Resumo:
A autora revê os grupos de substâncias causadoras de acromia química.
Apresenta a clínica e a fisiopatologia dessa discromia, bem como tenta
definir seu diagnóstico diferencial com o vitiligo idiopático.
Conclui que, pela clínica, podem ser indistinguíveis; provavelmente
muitos dos casos rotulados como vitiligo idiopático são, na verdade,
causados por substâncias químicas; por fim, na etiologia do vitiligo
idiopático, essas substâncias poderiam estar atuando no desencadeamento
da doença, já que, por seu grande número e sua presença
em objetos de uso diário, é impossível não se expor
às mesmas nos dias atuais.
Palavras-chave: Catecóis; drogas e agentes variados; fenóis;
pigmentação da pele; vitiligo.
Summary:
The author reviews the groups of substances that cause chemical achromy, its
clinical characteristics, and physiopathology and also tries to define its differential
diagnosis with idiopathic vitiligo. It is concluded that clinically the two
dyschromies can be indistinguishable, that probably many cases classified as
idiopathic vitiligo are actually caused by chemical substances, and, finally,
that these substances could be acting in the etiology of the idiopathic vitiligo,
since nowadays it is impossible not to get in contact with them, because of
their great number and their presence in everyday objects.
Key words: Catechols; miscellaneous drugs and agents; phenols; skin pigmentation;
vitiligo.
INTRODUÇÃO
A acromia química está despertando cada dia mais interesse, à
medida que se descobrem mais substâncias capazes de provocar esse tipo
de despigmentação cutânea. Sabe-se, desde 1939, que substâncias
químicas podem causar hipocromia. Naquele ano, Oliver, Schwartz &
Warren encontraram vários casos de leucodermia em trabalhadores de curtume.
Nessa indústria começou a ser utilizado um tipo de luva de borracha
para proteção, em cuja fabricação era usado um novo
antioxidante: o monobenzileter de hidroquinona, derivado fenólico.1 A
hidroquinona e seus derivados, por seu poder inibidor da melanogênese,
foram utilizados posteriormente no tratamento de melasma, efélides, lentigos,
cicatrizes pigmentadas2,3 e áreas de pele normal em pacientes com vitiligo
extenso.4 A histologia da despigmentação resultante é,
em tudo, igual à do vitiligo,5,6 ou seja, epiderme normal com melanócitos
degenerados.6
O principal grupo de substâncias causadoras desse tipo de acromia compreende os fenóis e catecóis, encontrados em vários produtos manufaturados de uso diário. Todas as outras substâncias acromiantes podem ser agrupadas como agentes despigmentantes diversos, que incluem as mercaptoaminas, os compostos mercuriais, os corticóides, entre outros. A leucodermia provocada por substâncias químicas pode ser generalizada, ocorrer em áreas diferentes das que entraram em contato direto com a substância química e, ainda, ser provocada por inalação, ingestão, injeção ou aplicação tópica.3
Fenóis
e catecóis
A partir da verificação de Oliver et al., em 1939,1 na indústria
de couros, a lista dos produtos estruturalmente relacionados ao monobenzileter
de hidroquinona tem crescido muito e parece que a ação despigmentante
desse grupo é maior quando a posição 4 do anel aromático
é hidroxilada, e a posição 1 tem cadeia lateral não-polar.7,8
Os principais fenóis
e catecóis descritos como causadores de acromia são:
1. Monobenzil,1,9 monoetil3,10 e monometileter11 de hidroquinona. (Figura 1,
2, 3);
2. Hidroquinona,12 quinol, diidroxibenzeno, para-hidroxifenol ou p-difenol.3
Essa substância induz acromia com mais dificuldade, já que é
um fenol sem aquelas substituições que aumentam a potência
despigmentante.8 Há autores que afirmam ser bastante seguro utilizar
a hidroquinona em concentrações de até 5%; acima disso,
os efeitos colaterais aumentariam sem haver maior eficácia na despigmentação.13
Outros2 acham que a concentração de até 2% é suficiente,
sem que haja melhores resultados em concentrações maiores. Fisher,
em 1982,14 no entanto, estudou quatro pacientes que desenvolveram leucodermia
desfigurante adquirida por uso de hidroquinona a 2%, sem que jamais tivessem
usado o monobenzileter;
3. Butilcatecol p-terciário;7
4. Butilfenol p-terciário.15,16,17,18,19,20 O aumento de sua concentração
urinária foi detectado em dois pacientes com acromia química,
trabalhadores de uma fábrica de resina em que essa substância era
utilizada;21
5. Amilfenol p- terciário;18,22
6. p-Isopropilcatecol;23
7. p-Cresol;3
8. p-Nonilfenol;3
9. p-Octilcresol;3
10. p-Fenilfenol;3,24 e
11. Hidroxitolueno butilado.25 Em estudo realizado em 1974, Bentley-Philips
& Bayles não conseguiram confirmar ser essa substância causa
de acromia química.26
Esses fenóis
e catecóis podem ser encontrados em uma infinidade de utensílios
de uso diário,3 como:
1. Objetos de, ou com borracha luvas, botas, sapatos, bonecas, chupetas,
sandálias, sutiãs, meias compressivas, preservativos, couro sintético,
plásticos, colas de látex, cintas, bandagens, esponjas para aplicação
de cosméticos, correias de relógio;22 (Figura 4, 5, 6, 7)
2. Colas15 e fitas adesivas;27,28
3. Fitas para fixação de eletrodos de eletrocardiografia;29
4. Antioxidantes para borracha;22
5. Antioxidantes para sabão;22
6. Reveladores fotográficos,22,30 incluindo os usados em máquinas
automáticas;31
7. Inseticidas;18,22
8. Germicidas hospitalares e domésticos 18,32 (o teste de contato com
esses produtos é positivo);33
9. Detergentes;22
10. Desodorantes;22
11. Óleos sintéticos;18
12. Resina de verniz e laca;22
13. Aditivos para óleo usado em motor;22
14. Plastificador para acetato de celulose;18
15. Fita de polietileno para curativo oclusivo;25
16. Papel de duplicação;22
17. Tintas de escrita e gráfica;22 e
18. Algumas plantas;22,34
Agentes despigmentantes diversos
1. Mercaptoaminas
(tiouracil)
São substâncias usadas como antineoplásicos, principalmente
em leucemias. Parecem exercer efeito citotóxico direto sobre o melanócito,
daí podendo provocar acromia.23
2. Aldeído
cinâmico
É usado em alguns cremes dentais. A paciente com acromia perioral, descrita
por Mathias, mostrou teste de contato positivo ao aldeído cinâmico
com hipopigmentação, três meses após sua realização.10
3. Fisostigmina
(eserina)
É encontrada em medicamentos para constipação intestinal
e também para glaucoma por ter efeito miótico local. Quando utilizada
nos olhos, já foi responsável por acromia palpebral.35
4. Thio-tepa (trietilenotiofosforamida)
É um antineoplásico.36
5. Fototóxicos
(psoralenos e tetraciclinas)
Talvez por mecanismo pós-inflamatório.36
6. Compostos mercuriais
Podem ser utilizados como antisséptico tópico para psoríase
e como agente despigmentante. Sua ação talvez seja decorrente
da inibição do processo enzimático na formação
de melanina37 ou, ainda, da inativação da tirosinase por deslocamento
de cobre.38
7. Prata e ouro
Podem provocar o mesmo tipo de acromia dos compostos mercuriais.37
8. Níquel
Está descrito como causa de acromia química. Em dois pacientes,
foi observada sem evidência clínica ou histológica que justificasse
o diagnóstico de hipopigmentação pós inflamatória.39
9. Arsênico
Pode provocar despigmentação puntiforme.40
10. Peróxido
de benzoíla
É utilizado em acne.36
11. Tretinoína
É também usada em acne.36
12. Vermelho-brilhante
É considerado a maior causa de acromia por cosméticos.36
13. BNCU (carmustina)
Tem maior utilidade como quimioterápico, principalmente na micose fungóide.36
14. Antimalárico
(cloroquina)
Pode provocar hipopigmentação dos cabelos,41 reversível
com a retirada da droga, e já foi descrita como causa de clareamento
de efélides em paciente com insuficiência renal congênita.42
15. Corticosteróides
Podem causar despigmentação quando aplicados localmente ou injetados
por via intralesional ou intra articular.43,44 Nas acromias por corticóide
é necessário fazer o diagnóstico diferencial com a leucodermia
pós-inflamatória. (Figura 8)
16. 5-Fluoruracil
tópico
Pode causar acromia quando utilizado como quimioterápico tópico.45
17. Guanonitrofuracin
É usado como antisséptico local, e há relato de acromia
palpebral quando utilizado em pomada oftálmica.24
Clínica
e fisiopatologia
O quadro clínico típico da acromia quimicamente induzida caracteriza-se
por:36
1. Dermatite de contato em alguns casos;
2. Máculas em confete agrupadas na área de contato, dois a seis
meses após a exposição contínua ao agente químico;
3. Coalescência de áreas hipopigmentadas, às vezes com lesões
satélites;
4. Disseminação para áreas sem contato direto com o produto
químico; e
5. Fenômeno isomórfico em áreas de atrito e pressão
(cinta, bandagens, meias para varizes, etc.) em pacientes com vitiligo
idiopático, mostrando quase completa ausência dos melanócitos
funcionantes e dos melanossomas melanizados na epiderme.5
A hipopigmentação
causada por agentes químicos é, na maior parte dos casos, um problema
ocupacional,46 resultado de diminuição do conteúdo da melanina
da pele. É ainda desconhecida a maneira como essas substâncias
atuam, mas, no caso dos fenóis e catecóis, o mecanismo que induz
à alteração do conteúdo de melanina pode ser:5,7,38,47,48
1. Destruição de melanócitos pelo sistema imune na pele
que já sofreu sensibilização por contato;
2. Destruição de melanócitos devida à formação
de radicais livres induzida pelo agente acromiante;
3. Inibição da síntese de tirosinase;
4. Inibição da reação da tirosinase;
5. Interferência na produção de melanossomas; e
6. Interferência na transferência de melanossomas para os ceratinócitos.
Em estudo sobre
o mecanismo de despigmentação provocada pela hidroquinona, Jimbow
et al., em 1974,49 concluíram que há redução da
síntese de melanossomas, alteração acentuada na estrutura
interna dessas organelas, aumento de sua degradação e, finalmente,
sua destruição nos próprios melanócitos, o que pode
levar à necrose dessas células; isso tudo sem nenhuma alteração
nos ceratinócitos.
Lerner, em 1971,50
sugeriu que, no vitiligo idiopático, os melanócitos se destruiriam
por força de um mecanismo natural de defesa, causando o desaparecimento
dos precursores da melanina. Isso acontece na acromia causada por derivados
do fenol e catecol, como verificado experimentalmente.23,50
O tempo de incubação da acromia ocupacional parece ser de quatro
a seis meses19, e a hipopigmentação, conforme verificada em voluntários,3,19
depende de:
1. Concentração da substância;
2. Veículo;
3. Freqüência;
4. Aplicação aberta ou fechada; e
5. Local de aplicação.
A despigmentação
pode ocorrer em área sem irritação prévia ou após
quadro compatível com dermatite ou queimadura.7,19 Alguns indivíduos
com vitiligo idiopático têm, na verdade, leucodermia ambiental
ou ocupacional3, e um teste de contato fechado pode, em pelo menos duas semanas,
reproduzir a despigmentação. Quando realizado em 48 a 72 horas,
não auxilia muito, pois é processo tóxico gradual e não
de natureza alérgica.
Uehara, em 1984,41
verificou, em lesões de vitiligo idiopático, diminuição
da reação cutânea retardada ao DNCB, que poderia resultar
de alteração funcional das células de Langerhans. Essa
alteração celular poderia ser tanto causa como conseqüência
do processo, porém só ocorria na pele despigmentada. Na pele normal
de pacientes com vitiligo a reação cutânea era normal. Brun,
em 1967,51 percebeu, em cobaias, que o monoetileter de hidroquinona leva à
despigmentação, sem provocar alterações detectáveis
nas células de Langerhans. A despigmentação provocada por
substâncias químicas é indistinguível do vitiligo
idiopático,52 e há possibilidade distinta de que a ingestão
ou inalação inadvertida dessas substâncias tenha papel na
produção do vitiligo de natureza disseminada ou, mesmo, que o
agente precipite vitiligo idiopático latente.3 Alguns pacientes com esta
última entidade podem ter, na verdade, leucodermia ocupacional ou ambiental,
induzida por essas substâncias.
O diagnóstico diferencial entre vitiligo idiopático e acromia química é extremamente difícil e, por vezes, impossível. As principais características desses dois tipos de alteração pigmentar são:
1. A clínica é igual tanto pelo aspecto quanto pela localização;6
2. Em relação à acromia química, há história de contato direto, ingestão, injeção ou inalação da substância;
3. O vitiligo idiopático pode acompanhar doenças como: anemia perniciosa, tireotoxicose,6,50 insuficiência adrenocortical, hiperparatireoidismo, alopecia areata, esclerodermia e melanoma;50
4. Ao microscópio óptico, observam-se quadros idênticos em todos os aspectos: melanócitos igualmente degenerados em lesões antigas;6
5. Ao microscópio eletrônico, talvez haja diferença devida à presença de células vacuolizadas. Elas foram encontradas em um único estudo, ainda não confirmado, na acromia química causada por esparadrapo;28
6. A lesão causada por agentes químicos pode desaparecer após a interrupção do contato ou permanecer indefinidamente. No vitiligo idiopático também pode haver remissão espontânea;3
7. Nas acromias químicas, o teste de contato pode ser positivo, após um mínimo de duas semanas, com ou sem eczema, mas é preciso apresentar hipopigmentação;3 e
8. Ambos podem
ou não melhorar com aplicação local ou interna de psoralenos
e exposição ao UV. Kahn, em 1970,18 usou psoralenos tópicos
e exposição solar na tentativa de recuperar a pigmentação
em pacientes com leucodermia química provocada por detergentes antissépticos.
Não obteve resultado; porém, um ano após descontinuar o
uso do acromiante, alguns pacientes pigmentaram novamente em áreas expostas
ao sol. Aqueles que continuaram usando o produto químico não mostraram
melhora alguma.
Quanto à
patogênese do vitiligo idiopático, Lerner, em 1971,50 afirma haver
três hipóteses:
1. um mediador neurogênico destruindo os melanócitos por liberação
de quantidades excessivas de agente neurotóxico próximo ou dentro
do melanócito, que poderia explicar o vitiligo segmentar;
2. a autodestruição dos melanócitos com formação
de anticorpos, após o dano a essas células; e
3. distúrbio imunológico devido a aumento de anticorpos contra
a melanina, o que levaria à perda dos melanócitos.
Qualquer uma dessas três possibilidades pode ser provocada por agentes químicos, já que eles poderiam agir como agente neurocitotóxico, como fator desencadeante de autodestruição dos melanócitos ou como agente precipitante de formação de anticorpos antimelanina.
DISCUSSÃO
E CONCLUSÃO
É preciso pensar sempre, nos casos de vitiligo, na possibilidade estar
sendo quimicamente induzido, para que se possa, antes do início do tratamento,
retirar o agente, que é semelhante ao do vitiligo idiopático.
Pela lista de compostos capazes de causar acromia, é impossível
que os pacientes de vitiligo não tenham entrado em contato com, pelo
menos, alguns deles. Como existe, nesses pacientes, alguma alteração
funcional das células de Langerhans, responsáveis pelo reconhecimento,
pelo processamento e pela apresentação dos antígenos ao
sistema imune, ou seja, ao linfócito T, é provável que
a doença de muitos deles, considerados portadores de vitiligo idiopático,
seja, na verdade, acromia química ou, mesmo, que a causa do vitiligo
esteja relacionada ao desequilíbrio da reação imune cutânea
causado por produtos químicos.
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Figura 1: Acromia por monobenzileter de hidroquinona: lesões acrômicas na face, pescoço, regiões claviculares e pré-esternal (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 2: Acromia por monobenzileter de hidroquinona à distância (aplicado na face): lesões acrômicas no dorso da mão esquerda. Mesma paciente da figura 1 (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 3: Acromia por monobenzileter de hidroquinona: lesões acrômicas em confete na face e à distancia nas mãos (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 4: Acromia por chupeta: lesão acrômica justa-labial, sem sinais de dermatite perioral (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 5: Acromia por sutiã: acromia na área do sutiã sem sinais de dermatite de contato (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 6: Acromia por sandália tipo havaiana: lesões acrômicas. Mesma paciente da figura 5 (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 7: Acromia por sandália: acromia reproduzindo o formato da sandália (acervo fotográfico de João Ramos e Silva)
Figura 8: Acromia por corticosteróide: um mês após aplicação intra-articular por artralgia no cotovelo esquerdo. Mancha assintomática exatamente na região onde foi inserida a agulha; sem outras áreas acrômicas