PLEITEANDO NOSSA INDEXAÇÃO NO INDEX MEDICUS / MEDLINE - Anais Brasileiros de Dermatologia 1999;74(2):184-186

Marcia Ramos-e-Silva

Editora Associada dos Anais Brasileiros de Dermatologia
Professora Adjunta de Dermatologia, Faculdade de Medicina, HUCFF-UFRJ, Rio de Janeiro

Resumo: Tradução do documento enviado à Dra. Lois Ann Colaianni, Diretora Associada de Operações da Biblioteca Nacional de Medicina, dos Estados Unidos, responsável pelo Index Medicus e Medline, pleiteando a indexação dos Anais Brasileiros de Dermatologia.

Abstract: Translation of the document sent to Dr. Lois Ann Colaianni, Associate Diretor, Operations, National Library of Medicine, United States, responsible for Index Medicus and Medline, asking for the indexation of Anais Brasileiros de Dermatologia.

Dra. Lois Ann Colaianni
Diretora Associada
Operações de Biblioteca
Biblioteca Nacional de Medicina
Bethesda, Maryland 20894
Estados Unidos

14 de janeiro 1998.

Prezada Dra. Colaianni;

Em relação à sua carta de 20 de maio de 1996, com a informação de que a revista Anais Brasileiros de Dermatologia poderia ser reavaliada outra vez em 1988, gostaríamos de submetê-la novamente ao Comitê de Seleção e Revisão Técnica Literária da NLM assim que for possível. Nossa insistência se prende ao fato de achar que a comunidade científica internacional deve ter acesso fácil a este periódico através do Index Medicus e da Medline, devido à sua relevância no campo da Dermatologia e ciências afins. Seguindo seu conselho, exporemos alguns fatos para demonstrar sua importância.

Os Anais Brasileiros de Dermatologia, publicação bimestral oficial da Sociedade Brasileira de Dermatologia, são publicados regularmente desde 1925. Nesta revista, são publicados artigos relacionados à Dermatologia e, sendo uma revista brasileira, a grande maioria dos artigos é relativa a doenças tropicais.

Algumas das mais importantes pesquisas dermatológicas brasileiras foram publicadas ao longo dos anos em suas edições, incluindo pesquisas sobre hanseníase, tinea nigra, bem como novas entidades clínicas, como as ceratodermias de Oswaldo Costa e Ramos-e-Silva. Pesquisadores brasileiros reconhecidos mundialmente e autores como Jorge Lobo, Gaspar Viana, Adolpho Lutz, Aguiar Pupo, Oswaldo Costa, Olimpio da Fonseca, e Carlos Lacaz, foram citados ou escreveram artigos para os Anais.

Os Anais Brasileiros de Dermatologia eram indexados no Index Medicus, mas infelizmente perdeu a indexação em 1971. A causa provável foi de ordem financeira, faltava regularidade, embora a revista não tivesse parado de ser publicada, houve casos de se emitir menos de seis edições programadas em um ano. Em 1991, os editores da época solicitaram a volta da indexação no Index Medicus, demonstrando que apesar das dificuldades, a qualidade científica continuava muito boa.

Durante este período, enquanto a revista não estava indexada, artigos muito importantes foram publicados nos Anais, e como a comunidade científica não teve acesso a eles, estas pesquisas nunca são citados sob o verdadeiro autor brasileiro.

Em setembro de 1993, a Sociedade Brasileira de Dermatologia decidiu estabelecer como prioridade a melhoria de sua revista. Uma nova equipe editorial assumiu a responsabilidade de publicar a revista a partir de janeiro de 1994 (vol. 69). Esta equipe editorial introduziu as seguintes características nos Anais Brasileiros de Dermatologia:

1. Obediência à Convenção de Vancouver: desde a primeira edição de 1994, a equipe editorial tem adaptado a revista aos Requisitos de Uniformidade para Manuscritos Submetidos a Periódicos Biomédicos (cópia incluída no suplemento da nossa revista1). Todos os itens em desacordo com estes requisitos foram mudados e agora os Anais Brasileiros de Dermatologia seguem integralmente esta convenção.

2. Revisão por Pareceristas: todos os artigos incluídos nas categorias de pesquisas clínicas, laboratoriais, terapêuticas, relatos de casos, artigos de revisão e comunicação são avaliados por três especialistas que dão seu parecer sobre o autor de modo anônimo. Estes revisores analisam os artigos aleatoriamente, o que aumentou sobremaneira a qualidade científica, bem como o conteúdo de nossos artigos.

3. Resumos em inglês de todos os artigos: Além dos resumos em português, todos os artigos são apresentados com resumos em inglês para que a sua essência possa ser compreendida por leitores que não lêem o português.

4. Editoriais, Instruções aos autores, Índices em inglês: Estas seções são publicadas em ambas as línguas.

5. Aceitação de artigos em inglês: Estamos agora aceitando com satisfação artigos escritos em inglês, permitindo que um maior número de autores em potencial possa ter contato com a literatura dermatólogica brasileira.

6. Artigos escritos por pesquisadores estrangeiros: Como os Anais Brasileiros de Dermatologia estão agora aceitando artigos em inglês, a revista tem sido honrada pela submissão de artigos de importantes dermatologistas de outros países tais como: Roberto Arenas (México), Konstantin Orfanos (Alemanha), Lawrence Parish (USA), Uwe Wolina (Alemanha), Miguel Correia (Portugal), Martin Black (Inglaterra) e outros. Achamos que isto aumenta a importância da nossa revista assim como mostra sua importância.

7. Aumento da qualidade de impressão, papel, etc...

8. Fotos coloridas sem ônus para os autores: a maioria das fotos são a cores, desde 1994.

9. Apoio financeiro: os anunciantes não têm nenhum tipo de interferência nas decisões editoriais. A revista é totalmente financiada por anúncios sem decisão editorial. Testes terapêuticos e outros artigos apresentados por laboratórios passam pelo mesmo procedimento como todos os demais e podem não ser aceitos, dependendo da revisão pelos pareceristas e editores.

10. Website: desde 1996, todos os artigos dos últimos dez anos estão disponíveis através da Internet (www.sbd.org.br). Este ano pretendemos incluir todos os artigos em inglês também. Estamos também tentando traduzir os artigos inteiros para o inglês para a homepage, mas esta é uma tarefa muito maior, devido à dificuldade de fazer boas traduções da literatura médica.

A equipe editorial manteve as seguintes características importantes nos Anais Brasileiros de Dermatologia:

1. Originalidade e categorias: Todos os artigos devem ser originais e divididos numa das seguintes categorias (todos passam por pareceristas): Investigações clínicas, laboratoriais e terapêuticas, relato de casos, artigos de revisão e comunicações.

2. Editoriais e correspondência: estas categorias estão também incluídas na revista (apenas com revisão pelos editores).

3. Livre distribuição aos membros da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Bibliotecas e Universidades do Brasil e do exterior.

4. Política de intercâmbio com muitas outras revistas brasileiras e internacionais.

5. Índice acumulado: incluído anualmente no número 6 (novembro/dezembro).

Devido a estes melhoramentos, o grande interesse da comunidade científica pelos Anais Brasileiros de Dermatologia e o árduo trabalho da equipe editorial, diretoria, conselho consultivo, revisores e autores, nossa revista recebeu as seguintes distinções e/ou características:

1. A revista dermatológica mais lida do Brasil: uma pesquisa recente (em anexo) entre muitas revistas especializadas, conduzida pelos Laboratórios Nikkho2 para fins próprios, revelou que entre as revistas brasileiras de dermatologia, a dos Anais Brasileiros de Dermatologia ocupa o primeiro lugar (52%), com folga para o segundo colocado (19%). Existem pelo menos nove publicações relativas à dermatologia no Brasil: 1. Anais Brasileiros de Dermatologia, 2. Ars Curandi - Dermatologia, 3. Vitrô Dermatologia, 4. Arquivos de Dermatologia, 5. Dermatologia Atual, 6. Folha Médica - Cadernos de Dermatologia, 7. Jornal da Sociedade de Doenças Sexualmente Transmissíveis, 8. Revista da Associação das Doenças Sexualmente Transmissíveis 9. Boletim da União contra as Doenças Sexualmente Transmissíveis, etc.

2. Escolha para o Projeto Uirapuru3,4 (Índice de Citações da Literatura Científica Brasileira e de Periódicos Técnicos): Os Anais Brasileiros de Dermatologia foram escolhidos para o banco de dados deste projeto, porque de acordo com a Lilacs, foi a segunda revista que mais publicou artigos sobre hanseníase no período 1981-1997 (o primeiro lugar coube a uma revista inteiramente dedicada à hanseníase). A Lepra foi escolhida como modelo inicial para este projeto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Obs: uma tradução da carta-convite à nossa revista para inclusão neste projeto3 e a carta que nos informa sobre o nosso segundo lugar em artigos sobre Lepra no Brasil,4 estão anexos.

3. Indexação na Lilacs, Periodica, Medical and Surgical Dermatology, Excerpta Medica, e Embase CD Dermatology: estes são índices muito importantes para os Anais Brasileiros de Dermatologia. Se conseguirmos a indexação no Index Medicus, nossa revista sem dúvida seria mais citada. Temos a certeza de que as pesquisas e os artigos que publicamos são extremamente relevantes em alguns temas e seriam mais citados se fossem nele indexados. O Index Medicus e o Medline são ainda nossos maiores objetivos.

4. Resumos de pesquisas incluídas na Medical and Surgical Dermatology: Desde 1966, um de nossos editores (Marcia Ramos-e-Silva) é também editora associada da revista Medical and Surgical Dermatology e tem feito resumos comentados de todas as pesquisas encontradas na literatura dermatológica publicada em português. A maioria dos resumos escolhidos pelo editor-chefe desta revista americana, Dr. Kenneth Arndt, foram dos Anais Brasileiros de Dermatologia, demonstrando a importância das pesquisas nela publicadas.

5. Aumento do número de assinantes e de artigos submetidos: o número de assinantes da nossa revista aumentou bastante (42%), especialmente entre os leitores de outros países. O número de artigos submetidos para publicação também aumentou.

6. Membro da Associação Mundial de Editores Médicos (WAME), do Conselho de Editores Biológicos (CBE) e do Conselho de Editores Dermatológicos: representantes dos Anais Brasileiros de Dermatologia agora são filiados e têm participado de encontros do Council of Dermatology Editors desde 1966; bem como da WAME e CBE, desde 1997. Podemos deste modo aprender com a experiência de outros editores, e também contribuir para a melhoria de outras revistas biomédicas e de Dermatologia.

7. Bolsa para o Workshop prévio ao Congresso sobre Revisão de Pareceristas (Set/97): Um dos editores dos Anais Brasileiros de Dermatologia foi escolhido para participar como bolsista no workshop sobre revisão de pareceristas, feito antes do 3o Congresso Internacional sobre Revisão de Pareceristas de Publicações Biomédicas e da Conferência sobre Revisão de Pareceristas e Comunicação Global, que aconteceu em Praga, República Tcheca. Uma grande melhoria no conhecimento editorial foi obtida no workshop e no congresso.

A equipe editorial dos Anais Brasileiros de Dermatologia, procurando constantemente melhorar a qualidade dos artigos Dermatológicos no Brasil, tem trabalhado junto com os autores e pareceristas, e com este fim tem organizado e promovido:

1. Simpósio Anual de Metodologia Científica: desde 1995, a equipe editorial organiza e promove um simpósio anual durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Para isso temos obtido a ajuda de muitas autoridades nacionais e internacionais na editoração, publicação e atividades associadas, que apresentaram trabalhos sobre como escrever e publicar trabalhos científicos, entre outros assuntos relacionados.

2. Suplemento de Metodologia Científica1: este suplemento foi organizado com base nos simpósios acima mencionados a fim de ajudar aqueles que não puderam assistí-los. Além das palestras, inclui também a tradução dos Requisitos de Uniformidade para Manuscritos submetidos a Periódicos Biomédicos", e alguns outros artigos que podem ser úteis a autores, editores, pareceristas, etc., relativos à organização, exame ético de pacientes e como escrever e publicar artigos científicos.

Concordamos com Wayt Gibbs5, escritor da equipe da Scientific American, quando diz que a inclusão em bancos de dados de prestígio "garante que o artigo da revista será visto quando cientistas procuram novas descobertas na literatura em seu campo, e decidem qual trabalho anterior citarão em seus artigos". Ele também diz que "a invisibilidade à qual a ciência do primeiro mundo condena a maioria dos artigos do terceiro mundo frustra os esforços dos países pobres para fortalecer suas revistas próprias - e com elas a qualidade da pesquisa nas regiões que mais precisam dela".

Christopher Zielinsky, da Organização Mundial de Saúde, num editorial publicado no British Medical Journal, disse "quando muitas das melhores e destacadas revistas de países em desenvolvimento são excluídas, os dois por cento de participação permitidos na discussão científica internacional são simplesmente pouco demais para dar conta da produção científica de 80% do mundo." 5

Também concordamos com Richard Horton, editor de Lancet, que disse: "uma das razões por que doenças infecciosas como o vírus Ebola estão aparecendo, é que mudanças econômicas em países em desenvolvimento estão colocando os seres humanos em contato com ecossistemas antes isolados; e a única maneira de compreender aquele processo e seus efeitos é publicando trabalhos de pesquisadores locais." 5

Nós vamos além e achamos que é fundamental tornar as melhores revistas locais, onde os artigos dos pesquisadores do terceiro mundo são publicados, acessíveis através dos principais bancos de dados, tais como Index Medicus e Medline.

Apesar de que "precisamos encarar o fato de que algumas revistas contaminam o esforço com sua má qualidade", conforme indicou Manuel Krauskopf 5 , existem ótimas revistas de países em desenvolvimento que merecem ser indexadas.

Analisando o conteúdo e a qualidade de impressão, e sabendo que os Anais Brasileiros de Dermatologia agora certamente preenchem todas as exigências descritas em seu artigo "Parâmetros para a Escolha de Revistas para os Bancos de Dados Medlar e Index Medicus",6 a comunidade científica brasileira sabe que sua revista publica os melhores artigos brasileiros de Dermatologia, bem como excelentes artigos do exterior.

Por todas as razões acima, a comunidade científica internacional, especialmente para aqueles que lidam com Dermatologia e Doenças Tropicais, está sendo enormemente prejudicada por não ter acesso fácil às pesquisas publicados nesta revista através do Index Medicus e Medline.

Conforme solicitado, estamos enviando as últimas quatro edições em envelope à parte, embora acreditamos que a National Library of Medicine tenha todas as edições regulares e suplementos dos Anais Brasileiros de Dermatologia. Pelo menos desde janeiro de 1994 a revista tem sido entregue no prazo, regularmente a cada dois meses, e muitas vezes uma a duas semanas antes do prazo final.

Esperamos que V.Sa. entenda nosso ponto de vista e nos perdoe a extensão desta carta, mas esta era a única maneira de expressar e relatar todos os assuntos relacionadas à nossa revista.

Aguardando notícias em breve, agradecemos antecipadamente sua atenção.

Atenciosamente,


Marcia Ramos-e-Silva
Editora Associada
Anais Brasileiros de Dermatologia


Referências e anexos:
1. Anais Brasileiros de Dermatologia Jul-Ago 1997;72 (Supplemento 1).
2. "Milhares de médicos opinaram sobre as revistas recebidas e as revistas lidas". Pesquisa Nikkho do Brasil. 1996:19.
3. Tradução da carta do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico convidando nossa revista a participar do Projeto Uirapuru (Índice de Citações da Literatura Periódica Científica e Tecnológica Brasileira)
4. Tradução da carta do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico comunicando que nossa revista é a Segunda em número de artigos sobre Hanseníase no Brasil (Projeto Uirapuru - Índice de Citações da Literatura Periódica Científica e Tecnológica Brasileira)
5. Gibbs WW. Lost Science in the Third World. Scientific American 1995;273(2):92-99.
6. Colaianni LA. Parameters for Selection of Journals for Medlars Databases and Index Medicus. Round Tables Abstracts. Seminário Internacional sobre os Desafios da Era da Informacão: Agentes e Usuários. São Paulo; Out 1994:1-5.