MICOSES PROFUNDAS
- Dermatologia Atual 2000;6(3)6-13
Marcia Ramos-e-Silva
Professora Adjunta
de Dermatologia
Doutora em Dermatologia - Faculdade de Medicina - HUCFF-UFRJ - Universidade
Federal do Rio de Janeiro
Livre-docente de Dermatologia - Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Resumo: As micoses profundas, que invadem a derme e/ou a hipoderme, e,
por vezes até órgãos internos, são revistas neste
artigo. Estas afecções, além de outras características,
mostram, na histopatologia, um processo inflamatório granulomatoso e,
no sangue, presença de anticorpos. Discute-se aqui em especial algumas
micoses profundas observadas no Brasil, entre elas a paracoccidioidomicose,
esporotricose, cromomicose, micose de Jorge Lobo, micetoma, criptococose e histoplasmose.
Abstract: Deep mycosis, that penetrate dermis and/or subcutaneous tissues and sometimes even internal organs, are discussed in this article. These diseases besides other characteristics show granulomatous inflammatory process in histopathology, and presence of antibodies in the blood. Some deep mycosis observed in Brazil as paracoccidioidomycosis, sporotrichosis, chromoblastomycosis, Lobo mycosis, mycetoma, cryptococosis and histoplasmosis are discussed in depth.
As micoses são
doenças causadas por fungos e podem ser superficiais e profundas. As
superficiais acometem a epiderme e seus anexos, afetando, às vezes, a
derme e, mais raramente, outros órgãos internos. Caracterizam-se
por não apresentar anticorpos séricos, provocar inflamação
local banal e, com freqüência, ser transmitidas por contato direto.
Já as micoses profundas, ao contrário das superficiais, invadem
preferencialmente a derme e/ou a hipoderme, e, também com certa freqüência,
os órgãos internos. Não se conhece a transmissão
homem a homem, e, na histopatologia, caracterizam-se por um processo inflamatório
granulomatoso, e, no sangue, pela presença de anticorpos. Nesse grupo,
entre as mais observadas no Brasil, estão a paracoccidioidomicose, esporotricose,
cromomicose, micose de Jorge Lobo, micetomas, criptococose e histoplasmose.
Fazem parte ainda desse grupo a rinosporidiose, rara no Nordeste; a coccidioidomicose;
a blastomicose norte-americana, não observada no Brasil; e as zigomicoses,
que se dividem em entomoftoromicose e mucormicose, doença em geral de
imunossuprimidos.
A paracoccidioidomicose, blastomicose sul-americana ou micose de Lutz, nome
do médico brasileiro que a descreveu, bem como o seu agente etiológico,
em 1908, é micose crônica ou subaguda, cuja causa é o Paracoccidioides
brasiliensis, que acomete tanto o tegumento quanto vísceras. É
endemia da zona rural que afeta, predominantemente, homens lavradores adultos.
Ocorre em toda a América do Sul e Central, à exceção
do Chile, onde até hoje nenhum caso foi descrito.
O fungo agente dessa doença é saprófita na natureza, e
sua penetração se dá principalmente por via pulmonar ou
digestiva, sendo raro observar-se pele ou mucosa retal como porta de entrada.
A invasão é ganglionar, e a disseminação, hematogênica.
Conforme o estado imunológico do paciente, podem ocorrer infecção
sem doença, doença localizada ou a doença generalizada,
que é mais comum. Os pacientes com a forma generalizada apresentam imunidade
celular deprimida, aferida pela negatividade aos testes intradérmicos
à paracoccidioidina e a outros antígenos inespecíficos.
A paracoccidioidomicose pode assumir várias formas clínicas, conforme
o órgão afetado.
As lesões mucosas características são ulcerações
de fundo granuloso e pontilhado hemorrágico, chamadas de estomatite moriforme
de Aguiar Pupo (Figura 1). Pode ainda manifestar-se por lesões infiltrativas,
vegetantes e/ou ulcerativas e pelo lábio trombiforme. A sialorréia
é extremamente freqüente.

Figura 1: Paracoccidioidomicose: ulceração com pontilhado hemorrágico
na gengiva
As manifestações cutâneas, que ocorrem, em geral, por disseminação hematogênica, já que a pele como porta de entrada é infreqüente, surgem como lesões papulosas, papulotuberosas, vegetantes, ulcerações, entre outras (Figuras 2, 3). Nas úlceras, nota-se, no fundo, o mesmo pontilhado hemorrágico que dá o aspecto moriforme encontrado na estomatite de Aguiar Pupo.
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Figura
2: Paracoccidioidomicose: vegetações discretas no nariz
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Figura
3: Paracoccidioidomicose: vegetação exuberante no lábio
inferior
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As adenopatias
são comuns, podendo ser regionais ou generalizadas, com amolecimento
e fistulização (Figura 4). Lesões, geralmente bilaterais
e na metade inferior dos pulmões, ocorrem em 80 a 90% dos casos, caracterizando-se
por alterações macro ou micronodulares, infiltrativas ou cavitárias
(Figura 5). É importante investigar a tuberculose concomitante, pois
em 12% dos pacientes essa doença está associada. Outros órgãos,
como o trato gastrointestinal, fígado, baço e supra-renais, podem,
eventualmente, ser afetados, em especial nos casos mais graves.
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Figura
4: Paracoccidioidomicose: fistulização no pescoço
e lesões na face
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Figura
5: Paracoccidioidomicose: RX de tórax - lesões infiltrativas
bilaterais
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A paracoccidioidomicose
é diagnosticada por meio do exame direto do material da lesão
ou do escarro, nos quais podem ser encontradas formas arredondadas, com membrana
de duplo contorno, reproduzindo-se por gemulação única
ou múltipla, que dá o aspecto denominado de criptoesporulação
em roda de leme. O fungo pode também ser cultivado em meio de Sabouraud
e ágar-sangue.
Ao exame histopatológico, observa-se granuloma e o fungo pode ser detectado
por meio de métodos de impregnação pela prata (Grocott)
ou pelo PAS. Como método auxiliar, pode-se utilizar a reação
intradérmica à paracoccidioidina, que também é positiva
na infecção inaparente.
O tratamento dessa moléstia é feito com sulfonamidas, cetoconazol,
itraconazol e fluconazol, por via oral e, em certos casos, anfotericina B de
uso endovenoso. O itraconazol parece mais eficaz do que o fluconazol, pois necessita
de menor tempo de administração para a obtenção
de remissão clínica. A reação de precipitina, que
avalia a atividade da doença, e a de fixação de complemento,
que depende da quantidade de parasitas, são os melhores métodos
de controle da cura.
A esporotricose é micose crônica causada pelo Sporothrix schenckii,
que é saprófita, permanecendo no solo, vegetais e palhas. Sua
penetração cutânea ocorre por traumatismo. A incubação
leva de uma a várias semanas, e, da pele, o agente vai para os linfáticos,
podendo atingir, em pacientes imunossuprimidos, mucosas e órgãos
internos. Ocasionalmente ocorre cura espontânea. É doença
universal, porém afeta com maior freqüência indivíduos
de regiões de clima tropical e subtropical. Acomete qualquer idade, sexo
e raça; tanto em área urbana quanto rural. É mais comum
em jardineiros e empalhadores.
A esporotricose apresenta-se sob quatro diferentes formas clínicas:
1. cutânea localizada: afeta mais a face, provocando lesão papulosa,
papulotuberosa ou verrucosa, que pode ter ou não ulceração;
às vezes há lesões-satélites mínimas e o
paciente apresenta boa resistência.
2. mucosa localizada: é rara, afetando conjuntiva, aparelho lacrimal, boca e faringe. Evidencia-se como nódulo, vegetação e/ou ulceração.
3. cutânea linfática: é a forma mais comum. Ocorre principalmente nos membros superiores e inferiores. O cancro de inoculação leva à formação de cordão linfangítico ascendente com nódulos intervalados, que evoluem para gomas (Figura 6). Há, em geral, adenomegalia regional discreta.

Figura 6: Esporotricose: linfangite nodular ascendente
4. disseminada:
sua forma primária ocorre por ingestão ou inalação
do agente, enquanto a secundária depende da resistência do paciente.
Pode evoluir com osteolite, periostite, artrite, meningite, bronquite, nefrite,
entre outras. É rara por lesão primária cutânea.
À histopatologia observa-se granuloma com zona externa de plasmócitos,
zona intermediária de células epitelióides e zona interna
de polimorfonucleares, além de ser possível evidenciar raros parasitas
em forma de charuto. A cultura em meio de Sabouraud é diagnóstica,
havendo crescimento em poucos dias de colônia inicialmente clara que depois
escurece. À microscopia da cultura são características
as hifas septadas com conídias em forma de margarida.
As medicações sistêmicas que se mostram eficazes na esporotricose
são solução saturada iodeto de potássio, itraconazol,
fluconazol, anfotericina B e 5-fluorocitosina, sendo as duas primeiras as drogas
de escolha. Vacinação com esporotriquina pode ser tentada em casos
resistentes.
A doença de Jorge Lobo, causada pelo Paracoccidioides loboi, fungo com
nomenclatura ainda em discussão, é uma micose localizada, crônica
e polimorfa que surge predominantemente na Amazônia e nunca fora de região
intertropical. A inoculação parece dar-se por meio de traumatismo.
Ocorre em especial no homem lavrador (10 homens:1 mulher), e sua clínica
manifesta-se por lesões queloidiformes ou, ainda, vegetantes, infiltrativas,
ulceradas gomosas, entre outras. São geralmente assimétricas e
circunscritas a uma região. Os locais mais afetados são os pavilhões
auriculares, membros inferiores e superiores. Quando acometidos, os gânglios
mostram-se duros e sem flutuação. Em geral, o paciente mantém
bom estado físico.
Para diagnosticar a afecção, procede-se ao exame direto do material
da lesão, que revela parasitas abundantes, bem como a histopatologia,
que mostra histiócitos espumosos com riqueza de parasitas. Esses se evidenciam
por serem fungos arredondados, com membrana de duplo contorno e reprodução
por brotamento simples ou múltiplo. O Paracoccidioides loboi não
cresce em cultura, e para seu tratamento podem-se utilizar a exérese
cirúrgica, a clofazimina e a 5-fluorocitosina, com resultados nem sempre
eficientes.
A cromomicose, que também é micose crônica, geralmente circunscrita
aos membros, é provocada por vários fungos demácios, entre
eles a Fonsecae pedrosoi, o Cladosporium carionii e Phialophora verrucosa. É
doença universal, mais prevalente em zona tropical e subtropical, onde
acomete basicamente homens lavradores. A lesão surge um a dois meses
após o traumatismo de inoculação, iniciando-se por pápula,
que depois ulcera e passa a ter aspecto de vegetação (Figura 7).
A propagação é por contigüidade, ficando circunscrita
ao membro afetado, porém incapacitando-o. Para se firmar o diagnóstico,
procede-se ao exame direto que mostra as chamadas células fumagóides,
nome dado aos corpúsculos fúngicos acastanhados. Na cultura em
Sabouraud, crescem colônias negras, e, na histopatologia, as células
fumagóides nos microabscessos e no interior das células gigantes
são observadas. O tratamento pode ser por eletrocoagulação,
exérese cirúrgica, amputação, anfotericina B, 5-fluorocitosina,
calciferol, cetoconazol ou itraconazol.

Figura 7: Cromomicose: placa de aspecto cicatricial e bordas crostosas no braço
Os micetomas são
doenças das zonas tropicais e subtropicais que predominam em homem adulto
lavrador. A penetração ocorre por traumatismo com vegetal (exógena)
ou a partir de saprófitas em cavidades naturais (endógena). Os
locais preferenciais são membros inferiores, regiões cervicofacial,
abdominal e torácica. Caracterizam-se por assimetria e evolução
lenta por anos.
Micetoma é, na realidade, termo genérico que engloba uma síndrome
clínica, causada tanto por certos fungos, quanto por alguns tipos de
bactérias, manifestando-se sempre por: a. aumento do volume da região
afetada; b. gomas e fístulas em várias fases evolutivas; e c.
saída de material exsudato necrótico e grãos (Figuras 8,
9).
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Figura
8: Micetoma: aumento do volume do pé (Cortesia Prof. Nurimar Conceição
Fernandes)
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Figura
9: Micetoma: fístulas na planta por onde são eliminados
os grãos (Cortesia Prof. Nurimar Conceição Fernandes)
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Esta síndrome
engloba: a. as actinomicoses, provocadas por bactérias da família
Actinomycetaceae, cujos principais gêneros são Actinomyces, Nocardia,
Streptomyces e Actinomadura; b. as maduromicoses, causadas por fungos imperfeitos
dos gêneros Madurella, Allescheria, Cephalosporium, entre outros; e c.
os micetomas eubacterianos, também denominados de botriomicose, esses
tendo como agentes etiológicos certas bactérias, como o Staphylococcus
aureus, Pseudomonas aeruginosa e Escherichia coli.
Os grãos, que saem das fístulas, nada mais são do que microcolônias,
mostrando-se como formações arredondadas, de 0,5 a 2mm. Podem,
às vezes, de acordo com sua cor, direcionar para uma ou outra espécie
de agente. Os grãos esbranquiçados e/ou branco-amarelados são
característicos de algumas espécies de actinomicetos, como o Actinomyces
israelii, Nocardia brasiliensis e Nocardia asteroides, e de maduromicetos, entre
eles a Allescheria boydii, Indiella brumpti e o Cephalosporium recifei; os amarelo-acastanhados
evidenciam o Streptomyces somaliensis; os brancos, amarelos ou róseos,
o Actinomadura madura; os vermelhos, actinomicetos, como o Actinomadura pelletieri
e maduromicetos, como o Rubromadurellas langeroni; e, por último, os
pretos, que também revelam alguns actinomicetos, como o Streptomyces
paraguayensis, e alguns maduromicetos, entre eles a Madurella mycetomi e a Pullularia
pullulona. Para o diagnóstico, realiza-se o exame direto, com evidenciação
dos grãos; os de micélio fino não septado com ramificações
laterais são de actinomicose, os de micélio grosso e septado com
clamidosporos caracterizam a maduromicose, e, por último, aqueles com
formações cocóides ou bacilares são os causados
por bactérias, indicando botriomicose. A cultura pode ser realizada com
identificação do agente e teste de sensibilidade a antibióticos,
e, na histopatologia, observa-se área central de inflamação
rica em polimorfonucleares, os chamados microabscessos, com grãos em
seu interior. O tratamento depende do agente etiológico; usam-se sulfas
e/ou sulfonas para Nocardia durante períodos que variam de meses a anos,
penicilina em dose alta para Actinomyces, anfotericina B ou cetoconazol nas
maduromicoses e, quando há invasão óssea, é necessário
proceder à cirurgia com amputação.
A criptococose ou torulose, causada pelo Cryptococcus neoformans, é rara
no Brasil e ocorre principalmente em imunodeprimidos, afetando pele e mucosas
em 15% dos pacientes. A penetração se dá por inalação
e, em casos graves, pode atingir o sistema nervoso central, ossos e vísceras
(Figura 10).

Figura 10: Criptococose: lesão hemisférica em paciente com AIDS
O último grupo a ser revisto, entre os mais observados no Brasil, é a histoplasmose, provocada por dois fungos do gênero Histoplasma. O Histoplasma capsulatum penetra por inalação, atingindo pulmões, mucosas, em especial, boca, faringe e laringe, pele e articulações (Figura 11). A infecção inaparente é comum, e os pacientes mostram reação intradérmica positiva à histoplasmina. O Histoplasma duboisii, que causa a forma africana da doença, afeta predominantemente a pele e os gânglios. A confirmação diagnóstica é feita pelo exame direto, que mostra formas gemulantes muito pequenas, pela cultura e pelo exame histopatológico.

Figura 11: Histoplasmose: lesão ulcerada na língua
As micoses cutâneas englobam grande número de doenças que interessam a várias especialidades médicas; seus quadros clínicos vão desde alterações benignas da pele e das mucosas, como a pitiríase versicolor e a candidíase oral, até doenças muito graves, que podem levar o paciente a sérias incapacidades ou mesmo à morte, como algumas micoses profundas. É de fundamental importância que todos aqueles envolvidos na atividade médica tenham uma noção desses conceitos e que estejam habilitados a, pelo menos, suspeitar desses diagnósticos, para que essas afecções possam ser tratar cada vez mais precocemente. Dessa maneira, melhora-se a qualidade de vida desses pacientes, evitando, assim, incapacidades e morte.
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