QUEILITES - Jornal Brasileiro de Medicina 2000;78(6):104-110

Silmara Navarro Pennini1
Paula Frassinetti Bessa Rebello2
Marcia Ramos-e-Silva3

1. Dermatologista; Chefe do Serviço de Dermatologia da Fundação Alfredo da Matta, Manaus, AM.
2. Dermatologista; Chefe dos Ambulatórios da Fundação Alfredo da Matta, Manaus, AM.
3. Dermatologista; Coordenadora do Ambulatório de Dermatologia Oral e Professora Adjunta de Dermatologia, HUCFF-UFRJ, RJ.

Resumo
Os autores discutem sobre algumas das formas de queilite que, por suas manifestações clínicas, freqüência e potencial de malignização, têm maior relevância tanto para o clínico geral, quanto para os especialistas que lidam diretamente com lesões da mucosa oral, como os dermatologistas, otorrinolaringologistas, cirurgiões de cabeça e pescoço, dentistas e estomatologistas, entre outros .

Abstract
The authors review some of the forms of cheilitis that because of their clinical manifestations, frequency and malignization potential have great relevance to General Physicians, as well as to the various specialists that deal directly with lesions of the oral mucosa as Dermatologists, Otorrhinolaringologists, Head and Neck Surgeons, Dentists and Stomatologists, among others.

INTRODUÇÃO
Queilite é a denominação dada aos processos inflamatórios dos lábios provocados por diversos fatores e, segundo Grinspan, aqueles com histologia específica e eventual localização labial, como líquen plano, lupus eritematoso, pênfigos e sífilis, estão excluídos dessa designação de queilite propriamente dita.

As principais queilites classicamente descritas na literatura médica por sua importância clínica, freqüência e potencial de malignização serão aqui destacadas.

QUEILITE ACTÍNICA
A queilite actínica (Figura 1) é uma reação inflamatória e pré-maligna do lábio, causada pela exposição prolongada e crônica aos raios solares. Acomete quase exclusivamente o lábio inferior, por ser o mais exposto, e é mais freqüente nos indivíduos de cor branca e do sexo masculino que exercem atividades ao sol, como agricultores e pescadores. A menor freqüência entre os negros ocorre pelo efeito protetor da melanina e acredita-se que, entre as mulheres, seja pelo uso do batom, que atuaria como fator de proteção.

Caracteriza-se clinicamente pelo aparecimento de manchas brancacentas com perda da coloração uniforme da semimucosa ou vermelhão do lábio, ficando borrada a linha de delimitação do mesmo com a pele. O lábio fica ressecado, descamativo, tornando-se cada vez mais áspero. Com a continuação da exposição solar há atrofia e surgem crostas e erosões. A presença de ulceração na queilite actínica é indicativa de malignização. Tais pacientes em geral apresentam outras alterações cutâneas crônicas degenerativas, como ceratoses actínicas e/ou câncer de pele, em outras áreas expostas ao sol.

O principal objetivo do tratamento é a prevenção do desenvolvimento de carcinoma espinocelular, apesar de se obter também razoável involução do quadro inestético e incômodo pelas erosões, crostas e aspereza do lábio.

A remoção do epitélio pré-maligno pode ser feita com a aplicação de 5-fluorouracil, tretinoína tópica e ácido tricloroacético. Métodos cirúrgicos, como eletrofulguração, criocirurgia, laser de dióxido de carbono, curetagem e vermelhectomia, podem ser utilizados nos casos mais graves.

O laser de dióxido de carbono tem sido usado com mais freqüência pela sua fácil aplicação e resultados pós-operatórios satisfatórios e superiores à vermelhectomia.

O uso de protetores solares labiais é indicado na prevenção de recorrências.

QUEILITE ANGULAR
A queilite angular (Figura 2) é um processo inflamatório localizado no ângulo da boca, uni ou bilateral, caracterizado por discreto edema, eritema, descamação, erosão e fissuras. É freqüente a ocorrência de períodos de remissão e exacerbação espontânea.

Geralmente está relacionada a um ou mais dos seguintes fatores implicados na sua etiologia: agentes infecciosos (estreptococos, estafilococos e Candida albicans); doenças dermatológicas (dermatite atópica, envolvendo a face, e dermatite seborréica); deficiência nutricional (riboflavina, folato e ferro), imunodeficiência (HIV, diabetes mellitus, câncer e transplante), hipersalivação e fatores mecânicos provocando a perda da dimensão vertical de oclusão, com queda do lábio superior sobre o inferior na altura do ângulo da boca, como ocorre no processo normal de envelhecimento, no prognatismo, na ausência de dentes ou com o uso de próteses mal adaptadas.

Além do exame clínico detalhado para identificar alteração oclusal e outros sinais de alteração nutricional ou imunológica, os exames bacteriológico e micológico da lesão podem auxiliar na elucidação diagnóstica e na escolha do tratamento, apesar dos microorganismos envolvidos serem saprófitas.

No tratamento da queilite angular é fundamental a correção dos fatores desencadeantes como, por exemplo, adequação de prótese dentária e correção de deficiência nutritiva, terapia da doença de base, assim como a aplicação de antimicóticos e antibióticos tópicos por tempo prolongado.

É de extrema importância também a profilaxia da queilite angular mantendo a higiene e desinfecção adequadas de próteses dentárias, fontes potenciais de contaminação, com isso evitando-se as recidivas. Há casos nos quais é necessária a realização de cirurgia plástica para levantar os ângulos da boca, evitando-se assim o acúmulo de saliva nas comissuras.

QUEILITE DE CONTATO
O processo inflamatório dos lábios desencadeado pela ação irritante ou sensibilizante de agentes químicos é denominado queilite de contato. Dentre os produtos envolvidos com maior freqüência, destacam-se os batons, medicamentos tópicos, dentifrícios (Figura 3), colutórios, esmaltes, produtos odontológicos, alimentos, instrumentos musicais de sopro, canetas e outros objetos que são compulsivamente levados à boca.

Caracteriza-se por edema, eritema, vesículas, descamação, erosões ou fissuras na semimucosa de ambos os lábios, estendendo-se até a pele. Às vezes pode manifestar-se apenas por descamação persistente, quando se faz necessário o diagnóstico diferencial com queilite esfoliativa.

Ao se suspeitar de processo alérgico pela história e quadro clínico, o teste de contato deve ser realizado, principalmente utilizando-se os produtos suspeitos.

Nesses casos o uso de corticosteróides tópicos está indicado e de preferência os de alta potência por curto período de tempo. Algumas vezes, quando o processo inflamatório é intenso, pode ser feito um curso rápido de corticosteróide sistêmico.

QUEILITE ESFOLIATIVA
A queilite esfoliativa é uma desordem inflamatória crônica superficial da área do vermelhão do lábio caracterizada por hiperceratose e descamação persistente.

Pode ser um processo autônomo ou decorrente de diversos fatores, como disfunção tireoideana, familial, ou ainda ser um eczema idiopático. No entanto, apesar da etiologia permanecer desconhecida, esta é, em geral, atribuída ao hábito repetido de morder os lábios (factícia). É predominante em meninas e mulheres jovens e a maioria tem algum tipo de distúrbio de personalidade.

Para o tratamento da queilite esfoliativa prescreve-se, em alguns casos, corticosteróides tópicos, tranqüilizantes e psicoterapia.

QUEILITE GLANDULAR
Tem sido descrito três tipos de queilite glandular: a simples, a glandular superficial (Baelz-Unna) e a glandular apostematosa profunda (Volkmann), todos acometendo com maior freqüência indivíduos do sexo masculino.

Embora a queilite glandular simples tenha sido primeiramente descrita por Puente e Acevedo como um processo inflamatório de glândulas salivares ectópicas, as evidências atuais mostram alterações inflamatórias com hiperfunção das glândulas salivares menores, de localização normal na zona de junção da mucosa com a semimucosa labial. Há hipersecreção e ectasia das glândulas salivares do lábio afetado.

Tem sido postulado que o processo inflamatório é decorrente de doença periodontal, de distúrbios emocionais, de caráter genético e decorrente da eversão do lábio inferior por diversos motivos. Entretanto, a etiologia permanece desconhecida.

A forma simples da queilite glandular caracteriza-se clinicamente por discreto aumento de volume e eversão do lábio inferior, com a presença de pequenos pontos avermelhados e deprimidos, que correspondem ao óstio das glândulas salivares. A expressão destes pontos pode provocar a saída de pequenas gotículas de saliva (sinal da gota de orvalho) e, à palpação, pode ser percebida a hipertrofia glandular.

O processo de infecção secundária da queilite glandular simples, manifesta-se pela saída de secreção purulenta pelos orifícios glandulares, que ao secarem formam crostas impetigóides. Estas, quando desprendidas, deixam áreas erosadas, em geral com cicatriz. Raramente ocorre adenopatia satélite. Este processo foi denominado queilite glandular supurada superficial.

Volkmann, em 1870, descreveu casos de queilite glandular apostematosa ou supurada profunda (Figura 4), quadro atualmente considerado por alguns autores como complicação da queilite glandular supurada superficial. É quase exclusivo do lábio inferior, que aumenta de volume e adquire consistência tensa em quase toda sua extensão. Há eversão labial, com os orifícios glandulares excretores dilatados, drenando secreção purulenta à compressão. Há formação de abscessos, em alguns casos, que podem fistulizar para a mucosa labial ou mesmo para a pele. Trata-se de um processo crônico, muito doloroso, sem comprometimento do estado geral. Este quadro pode estar associado à faringite, doença periodontal e língua saburrosa ou pilosa.
Há controvérsia quanto ao fato da associação de queilite glandular com carcinoma espinocelular, observado em até 30 % desses pacientes, ter uma relação causal direta ou se a eversão labial e a exposição solar seriam as responsáveis pelo desenvolvimento do processo maligno.

O tratamento das queilites glandulares consiste na erradicação de focos dentários, aplicação de antibióticos e corticosteróides locais ou sistêmicos, dependendo da gravidade do caso, podendo ser necessário até ressecção ampla da área comprometida ou limpeza cirúrgica.

QUEILITE DE CÉLULAS PLASMOCITÁRIAS
Trata-se de uma mucosite orificial de células plasmáticas que envolve a junção mucocutânea ou área do vermelhão. Considerada de caráter benigno e etiologia idiopática, equivale à balanite de Zoon. Caracteriza-se por áreas eritematosas brilhantes, geralmente no lábio inferior de pessoas idosas. Em alguns casos evolui para fissuras ou até mesmo ulcerações e pode acometer também a mucosa oral.

O tratamento consiste na aplicação de corticosteróide tópico potente ou intralesional. Tamaki et al, em 1994, relataram dois casos tratados com griseofulvina, acreditando no potencial efeito imunomodulador da droga.

QUEILITE GRANULOMATOSA
A queilite granulomatosa (Figura 5) foi descrita por Miescher, em 1945, como uma forma monossintomática da síndrome de Melkersson-Rosenthal.

Melkersson, em 1928, descreveu quadro de paralisia facial recorrente associada a edema labial e Rosenthal, em 1930, associou língua escrotal à síndrome, defendendo um caráter familial da mesma.

Sua causa é desconhecida, porém diversas etiologias lhe têm sido atribuídas. Burton, em 1992, mencionou que alguns autores acreditam ser a queilite granulomatosa uma forma localizada de sarcoidose ou uma forma ectópica da Doença de Crohn que pode preceder os sintomas intestinais por meses ou anos. Rogers, em 1997, citou causa multifatorial proposta por outros autores, como influência alérgica, microbiana e hereditária.

Manifesta-se clinicamente por episódios de edema indolor do lábio superior ou inferior, podendo envolver também mucosa oral, outras áreas da face e até o couro cabeludo. O edema se deve à obstrução linfática ocasionada pelo infiltrado granulomatoso. Estes episódios duram horas ou dias, sendo recorrentes. De início simulam angioedema, deixando discreto edema residual e adquirindo consistência mais firme a cada episódio.

O tratamento deve ser orientado no sentido de eliminar qualquer foco dentário infeccioso, identificar e controlar processo alérgico.

A terapêutica medicamentosa inclui corticoesteróide sistêmico ou intralesional, cloroquina, dapsona, clofazimina, com resultados parciais de melhora.

A queiloplastia pode ser utilizada, mas aplicações de corticoesteróide intralesional, associado ou não à queiloplastia, apresentam melhores resultados.

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Figura 1: queilite actínica
Figura 2: queilite angular
Figura 3: queilite de contato
Figura 4: queilite de Volkmann com carcinoma espinocelular
Figura 5: queilite granulomatosa